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quinta-feira, 29 de novembro de 2012

[Clube de Escrita] Isso está uma m%#@


Hoje eu vim aqui fazer um extra para falar sobre aquele pensamento que já passou pela cabeça de qualquer pessoa que tentou escrever algo legal: O que eu estou escrevendo está uma m%#@. Isso basicamente acontece quando você está escrevendo e decide começar a pensar, chegando a conclusão de que você nunca colocaria essa porcaria ao lado de um livro da J.K Rowling. Até a Stephenie Meyer faz algo bem feito. Você vai apagar tudo e ler 50 Tons de Cinza. Adeus carreira literária.

Talvez você escreva muito mal mesmo, ou talvez seja só o seu cérebro funcionando. 

Pelo menos eu sempre tive uma imagem meio idealizada de um escritor. Aquele cara pensativo, que vai pra uma cabana isolada, pra fazenda ou pra uma casinha de sapê. Lá ele faz alguma mágica e pronto: eis a nova obra de arte.

Talvez isso seja culpa dos filmes? Lá escritores são só aqueles caras que estão escrevendo sem parar ou com bloqueio criativo (e só aí eles são interessantes). 

Então, por um bom tempo eu achei que era isso escrever uma história. Ou só assim. Ninguém estava falando "Sim, minha filha, isso é fazer um livro. Isso e toda a parte depois." E é agora que você me pergunta, nem que seja por educação, que parte é essa.

E então é agora eu te respondo, seu preguiçoso safado, vai descobrir isso sozinho! Eu tive que me virar!!! Ou não. Talvez eu simplesmente responda. É, eu vou responder...

Essa parte depois é quando você revisa edita revisa edita revisa edita revisa edita revisa (...) até você pensar "É isso!" (e é um avanço extraordinário da fase inicial pra cá). Você não precisa escrever o livro perfeito da primeira vez, o diálogo não precisa estar impecável, a motivação não precisa estar tocante e você não precisa saber o nome do personagem A (alías, se for um livro de suspense, "A" já está perfeito para começar). Pode ser que isso tudo aconteça, parabéns, publique e fique rico. Mas se isso não acontecer, que se dane.

Por quê? Porque você está escrevendo por algum motivo, alguma história que você quer ver acontecer e/ou alguma coisa que você quer transmitir. Então coloque isso no papel.

Roubando na cara de pau o exemplo ótimo do John Green (é, o autor de A Culpa é das Estrelas): é como fazer uma escultura, primeiro você vai lá pegar o barro no puro trabalho braçal, depois você vai empilhar tudo até fazer um "morro" de certa altura. Nesse primeiro momento, para quem quer uma escultura perfeita você vai ter um ótimo monte de barro. Depois disso é que você vai começar a esculpir e esculpir e esculpir. Ou seja, primeiro você baixa o santo e manda tudo pro papel e, a não ser que você tenha incorporado o Shakespeare, provavelmente vai ter um monte de letras esperando uma boa edição.

Eu fiz esse post porque, além de pedir para o seu editor-interno literário ir pastar nessa primeira parte, eu queria mostrar pra vocês a parte de agradecimentos do livro "Brooklyn, Burning" do Steve Brezennoff [Resenha em breve, no CC mais perto de você!]. Com ela dá para ter uma boa ideia de como a história foi melhorada através do tempo (Ah! E Igor, guarda isso que eu vou usar no post respondendo seu comentário!).
Obrigado primeiro, mais uma vez, a Andrew e Edward. Eu acho que nós fazemos um bom trio de crítica literária, musical e culinária. Vamos fazer isso outra vez em breve.
(...)
Obrigado ao Loft, por existir, e o meus amigos das aulas do Loft, os primeiros a lerem isso, provavelmente antes disso valer a pena ser lido. Obrigado aos escritores de Minnesota, que eu tive o prazer de conhecer e de trabalhar durante os últimos anos; é maravilhoso fazer parte de uma comunidade tão forte e presente, especialmente os escritores de literatura para jovens.
Alguns dos primeiros leitores desse livro - em seus primeiros rascunhos: antes mesmo de ter um incêndio - foram do meu grupo de escrita online que durou pouco: Josh Berk, Jonathan Roth, Kurtis Scarletta e Jon Skovron. Eles me ajudaram a ver que duas crianças rodando pelo Brooklyn não era uma história. Obrigado pelas observações, galera.
Obrigado a duas outras comunidades também (...). Como autores conseguem sobreviver sem esse suporte está além do meu conhecimento.
Obs: Esse incêndio que ele fala é um elemento muito importante pra toda história e nem tinha no começo!!!

Autores famosos que melhoraram depois: O John Green já falou que em "Quem é você, Alasca?" a fixação do personagem por palavras finais só entrou mais tarde. No início não havia tanto do romance Gale-Katniss-Peeta em Jogos Vorazes (aliás, a Suzanne Collins já falou que tem problema em cenas com descrição, então ela provavelmente teve um esforço extra reescrevendo essas cenas). No início de Harry Potter, não era nem um trio principal. Patrick Rothfuss, autor de "O Nome do Vento", diz que demora muito a escrever porque no final de cada trecho revisa mil vezes. E por aí vai, todo autor deve ter a própria história de edição.

domingo, 8 de abril de 2012

[Livro vs. Filme] Jogos Vorazes

por Paulo Vaughan


Março acabou, mas "Jogos Vorazes" continua aqui no blog (*todos comemora*). A produção que tanto agradou não só como filme, mas como adaptação merecia um espaço no "Livro vs. Filme", né? Veja abaixo a sinopse feita por mim e depois clique em "Continue lendo!" para ler a crítica! 

>>>A História
Em um futuro indeterminado, a América do Norte é destruída e sobre o que restou dela nasce a nação de Panem, composta por uma Capital e 13 distritos. A Capital é rica e luxuosa, enquanto a maioria dos distritos é bem pobre e são eles que produzem itens (carvão e transportes, por exemplo) para os cidadãos da Capital. A maioria dos distritos não está satisfeito com essa situação, então, o distrito produtor de energia nuclear, o 13, resolve se rebelar. Uma guerra acontece e, obviamente, a Capital vence. Para mostrar seu poder superior, o Distrito 13 é completamente bombardeado e, para evitar novos levantes, são criados os Jogos Vorazes. Os Jogos são um reality show onde cada um dos distritos tem que oferecer dois tributos – um masculino e outro feminino, de 12 a 18 anos – para se matarem e, no final, só um fica vivo. 

Katniss Everdeen é a tributo femino do Distrito 12 - o mais pobre de todos - da 74ª edição dos jogos. A garota tem apenas 16, mas é mais madura que muita gente mais velha. Após a morte do pai, anos antes, Katniss passou a ter que sustentar sozinha a mãe e a irmã. Com a habilidade de caça herdada do pai, sobreviverá ou não aos Jogos?

 >>>O Livro

- Livro: Jogos Vorazes
- Série: Jogos Vorazes #1
- Autor: Suzanne Collins
- Editora: Rocco
- No skoob


Todas as pessoas que fazem resenhas falam a mesma coisa "É difícil fazer resenha de um livro que você gosta muito." E eu concordo plenamente, portanto, fiquem de sobreaviso quanto a esta crítica.

Preciso confessar para vocês: eu comprei o livro por causa da capa. Estava eu na livraria procurando o outro livro da Suzanne Collins, 'Gregor, O Guerreiro da Superfície', e o atendente me disse "Ah, você está interessado nesse livro? Acho que você deve gostar desse outro, acabou de lançar e é da mesma autora." Eu olhei para a capa, dei uma lida rápida na quarta-capa e resolvi levar os dois.

Só fui ler o livro um mês depois de ter comprado, se não me engano. Vocês não tem noção de como me arrependi de não ter lido antes. Jogos Vorazes é fantástico - mas isso vocês já devem saber, né? haha.

Bom, não vou me alongar falando da história, personagens, etc porque além de ter uma sinopse estendida feita por mim aqui em cima, vocês podem ler mais no nosso Centro de Treinamento.

Uma coisa para se comentar sobre o livro é que ele não é só mais um "livro juvenil", algumas pessoas podem não pegar a densidade da história, ela é muito mais adulta, apesar de o maior público estar mais pro juvenil. Isso é muito bom e acredito que tenha sido a intenção da Suzanne. Veja, muitas pessoas da minha idade (talvez até eu mesmo) não teriam refletido sobre os temas abordados (leia o CdT comparando a série com a realidade!).

E um aviso para quem pega o livro à procura de romance: esse não é o foco do livro. Sem desmerecer séries que focam nisso*, Jogos vorazes vai além. Há romance em Jogos Vorazes? Claro que sim, mas esse não é o foco do livro. O romance que existe no livro é natural para a vida da Katniss - ou você vai me dizer que não há romance na vida de uma pessoa de 16/17 anos?
*Atenção: eu não estou criticando livros cujo foco é romance (como "Crepúsculo" mesmo), eles podem ser tão bons dentro do seu meio como Jogos Vorazes é no dele.

Uma coisa que me incomodou no início foi que o livro não tem um ritmo muito bom logo de cara. No começo do livro as coisas ainda estão se desenvolvendo e o ritmo só começa a crescer mesmo depois da entrevista com os tributos e o início dos Jogos (lá para a página 130 do livro). Já entrando na parte do filme, essa coisa do ritmo acabou refletindo um pouco nas telonas mesmo tendo um início meio corrido.

Não tenho muito para comentar que não tenha sido apontado nos posts sobre o livro, então é isso. E nem preciso dizer quantos conversinhas o livro levou, né?


>>>O Filme

- Roteirista: Gary Ross, Billy Ray e Suzanne Collins
- Diretor: Gary Ross
- Distribuidora: Paris Filmes
- Elenco: Jennifer Lawrence (Katniss Everdeen), Josh Hutcherson (Peeta Mellark), Liam Hemsworth (Gale Hawthorne),... 


Adaptações de livros para filmes (e para séries de TV também) são sempre um problema. Em geral, isso acontece porque elas nunca agradam a todos.

Primeiramente, já digo que eu sempre irei defender adaptações cinematográficas (vamos deixar "Percy Jackson & O Ladrão de Raios" para outro post, tá?). Isso porque elas não são os livros em live-action e sim ADAPTAÇÕES dos livros.

Algumas pessoas não entendem que quando eles fazem filmes eles não têm só que agradar os fãs dos livros, eles têm que agradar o público no geral. Imagina, você faz um filme exatamente igual ao livro - com todas as cenas, falas e tudo mais. O filme vai ser um lixo. Não adianta dizer "Ah, os fãs vão amar!" porque não vai ser bem assim. O filme provavelmente vai ter umas quatro horas de duração, ou seja, vai ser cansativo - além de que deve ter algumas cenas tão paradas que vai dar sono nos espectadores. E se fosse assim, não teria uma continuação, já que todo mundo iria dizer que não gostou do filme e a bilheteria provavelmente seria muito baixa e a produtora teria prejuízos.

As pessoas têm que se tocar de que ninguém compra os direitos de um livro pensando "Oh, vou fazer um filme porque os fãs são lindos", o pensamento é outro; é mais para "Essa série tem muitos fãs, parece ser muito promissora. Irei investir, o retorno deve ser bom". Então, eles precisam fazer as mudanças necessárias para o filme funcionar como um filme mesmo. Veja as adaptações de "Harry Potter". No geral, nenhum dos filmes é extremamente fiel ao livro, mas eles são bons filmes e é isso que fez a produtora fazer a série até o fim.

Ok, agora que terminei meu discurso posso falar de "Jogos Vorazes". O filme é muito bom nos dois quesitos: filme e adaptação de livro. De verdade, acho que nunca vi uma adaptação de um livro tão fiel.

E o engraçado é que o espectador entra na sala de cinema já sabendo que o filme vai ser uma boa adaptação - tendo em vista que a própria autora do livro participou da escrita do roteiro. Obviamente, isso contou muito no resultado final. É claro, algumas diferenças foram necessárias entre o filme e o livro para que o filme funcionasse. A principal delas é a mudança no ponto de vista - no livro, vemos a história sob a perspectiva da Katniss, já no filme, a perspectiva é de uma pessoa de fora.  Todas elas são compreensíveis e vou comentar algumas abaixo


Atenção: spoilers do filme e do livro a partir de agora. Aviso quando terminar.

Para começar, uma coisa que muita gente reclamou: a mudança da entrega do broche do tordo. No livro é Madge, a filha do prefeito, que o entrega para Katniss. No filme, Katniss acha o broche no Prego  e o dá de presente para Prim como um símbolo de proteção, que por sua vez o devolve para Katniss como proteção nos Jogos. A mudança é positiva porque como o filme é em 3ª pessoa, poderíamos não perceber o forte laço entre Katniss e a irmã. O único problema no meio disso é que em "Em Chamas", o segundo livro, descobrimos umas coisa (não vou dizer o que porque pode ser spoiler para algumas pessoas) que é o verdadeiro significado do broche ter sido entregue para Katniss. Mas confio no roteirista e espero que eles mantenham esse significado.

Reclamações também rolaram por conta da falta do pão que o Distrito 11 dá para Katniss após a morte de Rue. Bom, de início eu também não gostei dessa mudança, mas depois de pensar sobre o assunto percebi que ela foi necessária e se adequou. Veja, se eles fossem colocar o pão, seria preciso uma explicação (povo do Distrito 11 se juntando para conseguir pagar, explicar a coisa dos pães de cada distrito, etc) para não ficar muito aleatório. Além disso, para ficar bom, precisaria de mais tempo de filme. E com a cena da rebelião no Distrito 11, já tivemos uma introdução para o clima tenso do próximo filme.

Outra mudança que algumas pessoas reclamaram e eu entendi foi por que eles não colocaram a história da avox ruiva. A história dela é importante, mas não agora, então acredito que eles tenham deixado para contar a história dela no próximo filme (até porque se colocassem agora, o espectador que não leu o livro acabaria não dando importância e no próximo filme já teria esquecido dela). Vi também umas reclamações absurdas como "Pô, a Katniss mal está na arena e já acha água! No livro ela leva dias para achar". Gente, menos, né? A pessoa queria o que, 30 minutos de filme só com a Katniss atrás de água? Houveram também reclamações quanto à Cornucópia do filme não ter formato de concha, mas essa mudança é meio óbvia. Não teria como fazerem a Katniss, o Peeta e o Cato ficarem em pé em cima de uma concha sem soar muito falso, né? E se vocês olharem bem as fotos da cornucópia, em um certo ângulo ela lembra uma concha sim!


Fim do spoiler. Vocês podem ver todas as cenas adicionas e com comentário aqui (em inglês). Com certeza, leva 5 estrelas como filme e adaptação de livro.

>>>Resultado

Empate. O livro e o filme se completam, ou seja, no livro temos informações que faltam no filme (sim, o filme tem certos furos. Minha mãe foi comigo em uma das vezes que fui assistir e no fim me fez algumas perguntas), e no filme temos algumas informações adicionais, coisas que não foram mostradas no livro.

Até mais o/

sexta-feira, 30 de março de 2012

Centro de Treinamento: Jogos Vorazes - Real or not real?


Bem vindo ao nosso último Centro de Treinamento, tributos. Hoje nós vamos ver a realidade através das páginas de Jogos Vorazes. Seria impossível dizer tudo (e dizendo quase nada o post ficou bem grande), mas já dá para começar a reparar nas coisas. Novamente, o post é feito para você circular entre os títulos de preferência. Além disso, é uma boa opção para quem quer/precisa estudar História e quer largar um pouco os livros da escola.

Com o lançamento do filme, muita gente aleatória acaba entrando em contato com a história criada por Suzanne Collins. Foi esse o caso do meu primo, que assistiu "Jogos Vorazes" e disse para mim:
 "Eu achei bom, mas... não é muito o meu estilo, é muito fora da realidade"
Dá para entender parte do ponto de vista dele, mas a questão é: será que é mesmo fora da realidade? Será que é só sobre um futuro distante e não temos nada a ver com isso? 

Aviso: esse post é para quem já leu pelo menos "Jogos Vorazes", tem bastante detalhe "estrutural". Quando tiver do segundo ou terceiro livro há um aviso.

O passado...

As guerras, de uma maneira geral

Um dos pontos mais originais da história criada por Suzanne Collins é o modo como ela trata a guerra. E não estou falando de criar muita ação, tiroteiros e invasões. Estou falando da forma de como entender a guerra. Eu nunca tinha visto um filme ou lido um livro que mostrasse essa situação que é muito real e às vezes deixamos passar: tudo o que perdemos pela guerra. Normalmente, vencer a guerra significa a vitória do personagem que nós acompanhamos, não importa o quanto ele tenha perdido para conseguir isso (em Harry Potter, por exemplo). Além disso, a história do país é mostrada como a nossa história, como se nós tivessemos escolhidos participar disso tudo e fosse o nosso objetivo vencer. 

O livro faz esse descolamento entre país e indivíduo, mostrando que são duas histórias diferentes e que interesses próprios fazem com que elas se unam ou se separem. Não vou me estender aqui, mas essa é uma das histórias de guerra mais próximas da realidade, sem toda a propaganda pró-guerra embutida. 
*Uma comentário extra: temos um exemplo bem recente da forma tradicional de retratar a guerra e o exército no clipe "Part Of Me" da Katy Perry. A mulher forte, que escolhe participar, lutar pelo próprio país... É interessante que enquanto ela canta "This is the part of me that you're never gonna ever take away from me" está no meio da guerra e parece essa pessoa inquebrável. Em Jogos Vorazes mostra bem o contrário. Outro exemplo de criar uma visão positiva disso foi o "Salute The Troops". 

Análise de caso: Ditaduras reais e Guerra Fria

Eu não estou aqui para dar uma aula de História sobre ditaduras do mundo que (supostamente) aprendemos mais cedo ou mais tarde na escola. Hitler, Stalin, Mussolini* e muitos outros são os nomes que nós ouvimos e foram os símbolos de sistemas muito parecidos com os de Jogos Vorazes. Se quiser, eu já falei sobre distopia aqui e você pode ver sobre ditaduras aqui, que são muito parecidas.
*Você sabia que em Harry Potter o fundador da Sonserina, o Salazar Slytherin, teve o nome inspirado no "ditador" de Portugal, António de Oliveira Salazar? No jogo Resident Evil 4 também há uma Salazar nada amigável. E, aqui no Brasil, temos a autora Luiza Salazar, que não tem nada a ver com isso (eu acho). 

O que eu vim falar aqui hoje é sobre a Guerra Fria e essas ditaduras que aconteceram em vários países, inclusive aqui no Brasil. Ah, e o que isso tudo tem a ver com Jogos Vorazes.

Atenção: spoilers dos três livros daqui para baixo, inclusive importantes de "A Esperança". Terá aviso no fim dos spoilers dessa parte.

Quando eu fiz um resumo com os possíveis tópicos para esse post, o Paulo me perguntou: como assim o Distrito 13 pode ser a União Soviética (URSS) e a Capital pode ser os EUA? 

Simplificando ao máximo, é assim: Os EUA, o capitalismo e boa quantidade de ditaduras (como a brasileiras), representam Panem. Esse lado é um pouco mais complexo, porque é metade do mundo mistura para representar um só país fictício. Já o outro lado, da URSS e das ditaduras comunistas (como a China), representam o Distrito 13.

Vou começar pelo Distrito 13, que é mais fácil. 
"O comunismo é uma ideologia política e socioeconômica, que pretende promover o estabelecimento de uma sociedade igualitária, sem classes sociais e apátrida, baseada na propriedade comum e no controle dos meios de produção e da propriedade em geral."
Ou seja, tudo é do povo e é o próprio povo que consegue tomar o poder. Quase a busca da sociedade utópica em um sistema que, se tivesse passado da teoria, poderia ser algo parecido com o mundo de "Destino" da Ally Condie. Isso também é mais ou menos o modo como o Distrito 13 se organiza (comida dividida, lugares para morar, as roupas, trabalho...), tudo dentro de uma "igualdade". Mas, como nós vemos nos comunismos e no D13, as pessoas começam a viver infinitamente em uma situação precária e de esforço coletivo, ouvindo ordens de alguém, para chegar a um futuro ideal que parece nunca chegar. Pior ainda: corre o risco do poder ser dominado por alguém que esqueça os objetivos iniciais (ou os ignore) e governe com mão de ferro, transformando tudo em uma ditadura onde a igualdade se transforma em uma forma de restringir a liberdade.

Enquanto isso, a Capital (ou EUA) é o lugar dos sonhos, dos prazeres, da diversão e com acesso a tudo. Já os distritos (ditaduras pelo mundo*), acabam sofrendo com a mão de ferro do governo e trabalhando para sutentá-lo. Alguns, enxergam a opressão como uma forma de ir para frente, outros se viram como podem e sofrem as consequências. Nos distritos, se sofre todo o tipo de problema comum das ditaduras (falta de liberdade, exploração, manipulação ideológica...). 
*Se vocês pularam algumas aulas de História, os governos capitalistas estabelecidos (praticamente, só os EUA) incentivaram as ditaduras pelo mundo, inclusive a brasileira. Nós, brasileiros, não estivemos sob um regime comunista, mas sofremos uma ditadura (que é muitas vezes deixada fora de pauta, mas muita gente foi assassinada ou torturada, se não concordava com o governo. Isso no Brasil. Muitos livros da época dos nossos pais sofreram censura e romances apenas de entrenimento tomaram o lugar - isso te lembra a uma tal política de pão e circo?).
**Atenção: esse processo de formação de ditaduras e influência americana não é tão simples, faz parte de um contexto inteiro de uma época, mas tem bases parecidas com a de Jogos Vorazes.

A grande questão é que, em Jogos Vorazes, a Katniss perde a confiança nos dois lados. A Capital sempre foi um problema e ela nunca concordou com a ideia de meia dúzia viver com tudo enquanto o resto morre de fome trabalhando para eles. Depois, no Distrito 13, ela percebe que está tomando o mesmo caminho, que pode acabar virando uma Panem inversa ou uma ditadura "igualitária". Ela enxerga que nenhum dos dois lados é tão bom assim e as coisas não vão mudar tanto (e, com a morte da Coin, ela cria uma chance de ser algo mais parecido com uma democracia).

No final, no nosso mundo real, acontece algo parecido. A URSS, com seus princípios perdidos, acaba desmoronando. As ditaduras pelo mundo, acabam perdendo a força (já que, em muitos casos, o povo não aguentou, criou um crescimento autodestrutivo ou a falta de um inimigo enfraqueceu os governos*). Em outras palavras, acaba que nenhum dos dois modos é mesmo válido. 
*Além disso, as ditaduras podiam atrapalhar a expansão americana.

Outro ponto interessante dessa comparação é a que traz os EUA para mais perto ainda da Capital e o Distrito 13 para URSS: a guerra ideológica. O nome "Guerra Fria" resume um conflito silencioso que ocorreu de vários modos e não como a guerra em si. Isso é exatamente o que acontece na maior parte de "A Esperança", a invasão de Capital e a ação é só no final. 

No livro: temos uma grande guerra de propaganda, com o Distrito 13 usando a Katniss de um lado, a Capital usando o Peeta do outro. Isso para que o povo seguisse um ou o outro lado. No mundo real: Até hoje aqui no Brasil, que sofreu da influência americana, há uma carga negativa na palavra "comunista". E, volta e meia, surge um filme que traz uma propaganda embutida* (assim como eu falei no caso da Katy Perry com a guerra).
*Um exemplo clássico, mas mais com a Alemanha e Hitler, são os filmes baseados em quadrinhos antigos, como "X-men" e "Capitão América", onde os inimigos são de lá. Aliás, o filme mostra bem o Capitão América sendo para a população americana o mesmo que no livro a Katniss é para os distritos. 

No livro: Em uma primeira fase, os distritos começam a se revoltar contra a Capital e acontecem os conflitos "localizados", com o Distrito 13 apoiando os rebeldes e o governo tentando se segurar. No mundo real: os muitos conflitos EUA vs. URSS que aconteceram pelo mundo. Um exemplo clássico (e que tem ligação direta com a Suzanne Collins) é o da Guerra do Vietnã, que era dividido entre a parte norte (de influência comunista) e a parte sul (de influência capitalista). Os EUA deram apoio ao Vietnã do Sul ajudando a atacar o norte.

A foto é tão clássica para demonstrar o horror da guerra que se escrever "garotinha napalm" no  Google você encontra.
Só para lembrar, eu não estou aqui defendendo lado nenhum, até porque eu concordo bastante com a visão da Suzanne Collins.

Fim dos spoilers de "A Esperança" aqui.

O presente...
"Então.. um monte de gente passa a vida trabalhando, como escravos, para só alguns viverem no luxo"
É claro que eu estou descrevendo a Capital e os distritos, não é? Não. Essa frase veio de uma conversa com o meu pai mais do que inesperada. Se algum fã de Jogos Vorazes chegasse nesse ponto, provavelmente pensaria que estávamos no meio de uma discussão sobre a vida em Panem. Porém, nós não estávamos. Estávamos falando do Rio de Janeiro, das favelas e da história da humanidade no geral

A sociedade de aparências 

Vivemos na época que criaram os realities shows, onde a propaganda é forte, onde as aparências estão em alta. Nós, no post de análise, falamos sobre como o livro trata do "Real or not real?". A personagem principal, Katniss, é quase paranóica de tanto que ela desconfia das pessoas. Ela está o tempo todo confrontando verdades, mentiras e precisando julgar o que é o quê. No nosso mundo, não é difícil alguém falar que algo é "falso". Aqui mesmo, tratamos sobre a ideia de dizer que Jogos Vorazes é um plágio de Battle Royale.* A autora não só aborda essa questão de o que é verdadeiro em vários níveis, enquanto traz exemplos de pontos de vistas que contradizem o comum (o personagem que as pessoas mais gostam, mente o tempo inteiro, enquanto um que atrai até ódio, é o que mais fala a verdade).
"A gente trabalha muito com o que é natural e o que não é natural" - frase ouvida na escola de comunicação 

Tecnologia e Biologia

Quando o meu primo tava falando sobre o filme (o mesmo do início do post), ele citou os "cachorros" saindo da terra como argumento de que não era real. É claro que ele não podia saber que aqueles "cachorros" eram, na verdade, seres criados a partir de manipulação genética - o que também parece distante da nossa realidade. 

A questão é que essas coisas podem não ser reais, mas está próximo o bastante para a gente questionar o uso delas. Qualquer um que tem aula de Biologia (principalmente agora com o ENEM), já passou por uma aula que questiona esses avanços. No próprio livro, com o surgimento do Mockingjay (tordo) e a falha do Jabberjay (gaio tagarela), já é mostrada a limitação do homem para controlar essas criações. E é melhor a gente começar a pensar antes que aconteça*. 
*Curiosidade: muitos dos zumbis mais recentes, como em Resident Evil, são fruto da manipulação de seres vivos. 

Para falar a verdade, elas já são reais. Enquanto escrevia lembrei dos gatos fluorescentes.

Saiba mais

Análise de caso: está acontecendo agora

Essa semana o nosso CCTV teve tudo a ver com esse post, foi sobre o Joseph Kony, um homem na Uganda que comanda um exército de rebeldes e sua forma de recrutamento é através do sequestro de crianças, que já crescem em lugares isolados de péssimas condições, sem muita perspectiva de futuro, e ainda convivem com o medo de serem levadas ou verem alguém ser (muitas vezes, as crianças sequestradas morrem, são multiladas, estupadradas...).

Podemos fazer uma linha aqui com a Capital. Para falar a verdade, enquanto eu escrevo esse texto eu me surpreendo com o número de semelhanças. Apesar de não ser um sistema de governo organizado, as condições gerais são muito parecidas.

Joseph Kony, uma força que funciona passando por cima da liberdade alheia, usando a violência para conseguir o que quer (nos livros, a Capital precisa de recursos; já na vida real, ele quer criar um exército).

Nos livros, uma das coisas que mais me faz pensar, é como a Katniss tem uma vida triste e sem destino. Ela vive para manter a mãe e a irmã, mas e quando a mãe morrer e a Prim casar? Ela ia envelhecer, sozinha, em uma cabana (há outros pontos de argumentação, como existir o Gale, mas não quero me estender aqui). Isso porque ela é o tipo de pessoa objetiva e vai pelo o que é lógico, então sabe que o melhor não seria criar nada (porque, se você não tem nada, não podem tirar isso de você). Esse é o futuro que ela teria. Ou...

Ou ter uma família e ano pós ano ver a vida deles em risco. Não só porque eles podem ser retirados a força e levados para um reality show onde eles provavelmente vão morrer, mas porque a vida no distrito não é fácil. Precisa lidar com a fome, com a falta de recursos, com uma lei opressora e com o fato de que não há, mesmo, um modo de sonhar com um futuro bonito.

Então, meu amigo, agora eu estou interrompendo a programação para avisar que você acabou de encontrar o trecho secreto. Que isso? Você pode ganhar mais vinte e cinco chances no sorteio dos livros de Jogos Vorazes que está acontecendo, basta fazer um comentário com conteúdo aqui - não fale sobre o trecho secreto ou que ganhou, se falar será desclassificado - e vá no post do sorteio para confirmar no retângulo do rafflecopter, colocando o nome utilizado para comentar aqui. Qualquer dúvida: twitter. Ou seja, é assim que a burguesia encontrou o caminho da liberdade em 1674.

As crianças retratadas no vídeo (Kony 2012) também passam boa parte por isso. Podem ser tiradas de casa a qualquer momento e, em casa, precisam lidar com outros problemas, como a fome, a falta de um futuro...

E digo mais: isso não é só na Uganda. Quem prestou atenção nas aulas de História, tem ideia do quão problemática essas áreas da África são. Ou, para ir até mais longe (ou mais perto), isso também ocorre no Brasil, com pequenas alterações. Trabalho escravo no Brasil. 

Atenção: spoiler de "A Esperança" e do fim de "Em Chamas". Terá aviso quando acabar.

Mas e por que é que isso na Uganda está recebendo atenção agora? Se você leu o texto do CCTV, provavelmente já tem ideia da resposta. Foi descoberto petróleo lá, os EUA precisam de bons motivos para explorar (e, novamente, quem estudou História sabe que eles sempre usam desculpas para o que fazem, é quase marca registrada). Tá, tá. Mas o que isso tem a ver com Jogos Vorazes?

Isso tem a ver com o Distrito 13, que de cara parece o mocinho (assim como os EUA), mas depois nós não temos mais tanta certeza. Há interesses na história. No caso da realidade, dá para acreditar que os EUA vão lá apenas matar o Joseph Kony (que, assim como o Osama Bin Laden, não criou isso tudo sozinho) e voltar para casa? E como vai ficar o país depois? Ah, e os outros países que passam por algo parecido ou até pior?

Outra coisa muito interessante que aparece em Jogos Vorazes e graças ao Kony 2012 vemos em primeira mão, é a propaganda. Os vídeos que a Katniss faz, os vídeos feitos pela Capital... Esse vídeo do Kony 2012 é uma propaganda como essas* - e das muito bem feitas. E agora: para qual lado você vai se deixar levar? Seria muito mais fácil se a gente pudesse dar uma flechada e...
*Um caso brasileiro de propagada é aquela do Movimento Gota D'água.

Não estou aqui afirmando nada, só trazendo relações de semelhança, que estão por toda parte e que nós vemos através de Jogos Vorazes. Para você ver, no início eu já tinha feito a relação dos EUA como Capital e URSS como Distrito 13, enquanto agora os EUA são o Distrito 13 e o Joseph Kony a Capital (tudo depende da perspectiva, sem falar que eu estou citando épocas e situações diferentes).

Fim dos spoilers dos dois últimos livros.

Comentário final

Essas foram algumas comparações para as pessoas verem como o que está nos livros pode representar a nossa realidade de diversos modos. Não significa que a autora pensou em tudo isso, às vezes fazemos muitas relações sem nem pensar. A questão é que, independente do objetivo da autora, a trilogia serve para abrir os olhos de muita gente e nos fazer entender certos aspectos. Há até professores e pais que comparam o reality show como uma metáfora para a escola americana (não quero nem saber o que eles estão fazendo por lá...). 

Obrigado por participar!

Esse foi o último post do Centro de Treinamento, nosso especial das sextas temáticas de março dedicado a Jogos Vorazes. Aqui nós tentamos preparar vocês um pouco para os Jogos Vorazes, assim como o Centro de Treinamento do livro faz. Pelos comentários nos posts e no twitter, parece que ajudou muita gente a reparar em coisas que não havia percebido antes, o que é muito bom. Ficamos muito felizes em saber que o fazemos aqui está sendo útil. 


Até a próxima sexta. 

sexta-feira, 23 de março de 2012

[Resenha] Jogos Vorazes, filme

por Dana Martins


- Filme: "Jogos Vorazes"
- The Hunger Games (2012)
- Adaptação do livro "Jogos Vorazes"
- Direção: Gary Ross
- Atores: Jennifer Lawrence, Josh Hutcherson, Liam Hemsworth, Woody Harrelson, Elizabeth Banks
- Ação/Drama/Ficção Científica/Distopia - 12 anos - 144 min.
- Nos cinemas brasileiros a partir de 23 de março de 2012
OBS: A autora do livro, Suzanne Collins, ajudou na criação do roteiro.




Mini-crítica: 
"Jogos Vorazes" , o filme, conta a história de um mundo em que 12 distritos são subordinados a uma Capital, trabalhando quase que como escravos para que essa minoria viva bem. Depois de uma tentativa de rebelião, foram criados os Jogos Vorazes, um reality show em que 24 tributos são colocados em uma arena e só um sai vivo. Esses tributos são um menino e uma menina sorteados em cada um dos 12 distritos. Porém, esse sistema de opressão trabalha no limite: dá muito poder aos tributos (ao colocá-los como queridinhos diante das câmeras), mas ao mesmo tempo precisa conter esse poder. O filme mostra exatamente uma edição de Jogos Vorazes em que esse poder vai longe demais.

Um outro filme do estilo, como "Gamer", é mais cru e mesmo que faça alguma crítica ainda tem um foco forte nos personagens. "Jogos Vorazes" tem mais o foco na crítica, mas ao mesmo tempo por causa da quantidade de fatos acaba não fazendo uma crítica tão consistente. O resultado disso é uma aventura estranha que acontece em um reality show tratando o tema de forma mais suave e onde o foco é mais no mundo do que nos personagens. Muito indicado para quem gosta de ficção cientifíca, cenários futuristas, da ideia de um reality show de sobrevivência baseado em lutas e ainda quer saber mais sobre o mundo que Suzanne Collins começou nos livros.

Quer saber mais? Clique abaixo para conferir a resenha completa.
Antes de começar, eu acho importante deixar claro que eu li os livros e, como vocês viram ao longo do nosso Centro de Treinamento, é uma história que eu gosto muito e tenho muita familiaridade. O que isso significa? Que a minha visão não pode alcançar de todo o que quem não leu vai entender (por enquanto). Porém, isso não significa que eu não tenha tentado.
*depois eu acabei percebendo que quando eu falo "mais superficial" e "menos violento" meu ponto de referência é o livro, porque para quem não leu é, sim, violento e bem acabado. Só quem leu que observa a profundidade por trás de tudo e percebe o que está faltando. E, como eu digo aqui, eles ainda podem aprofundar mais.

O filme consegue criar um cenário futurista e bem detalhado, que representa bem os três planos da história: o contexto da Capital e do país, representado por cenas do presidente, das pessoas na Capital e nos distritos. Depois o Jogos Vorazes como um programa que é, encaixando os comentaristas e a equipe que manipula a arena enquanto o reality show está rolando. E, por último, a personagem que acaba encabeçando essa história, a Katniss.

Entre roladas no barranco e curtições, o "Jogos Vorazes" tem o ritmo um pouco mais acelerado devido a quantidade de informações, que podem acabar deixando as coisas um pouco superficiais. O filme trabalha com os fãs ao mesmo tempo que ensina a quem não assistiu e lida com a censura americana paranóica. Ou seja: está cheio de detalhes que só os fãs vão entender o significado na cena (como o gato), acaba pegando mais um clima de preparação para os próximos filmes e a violência é praticamente mandada embora.

É um filme mais fácil de se gostar e entender do que o livro, já que a maioria das críticas são jogadas na cara e não há um maior desenvolvimento e maturação dos casos. Porém, se você leu os livros, vai precisar usar a cabeça para entender a perspectiva do filme.

O livro em si, apesar de trazer questões fortes como crianças se matando de um modo selvagem, não é tão violento assim. Já o filme, menos ainda. A maioria das mortes são claramente escondidas (você vê que vai acontecer, até escuta e vê o sangue, mas não assiste de fato). Ou a luta final entre Katniss e Cato, que é escuro, com vários cortes e uma filmagem próxima que dá movimento, mas não é como se você realmente estivesse acompanhando a luta. Um dos exemplos mais marcantes de como o filme faz essa adaptação é em uma cena em que a Katniss é encurralada por uma outra garota*, em que no livro a outra explica melhor como pretende matá-la dolorosamente, enquanto no filme nós vemos a ponta de toda essa loucura da personagem (muito bem expressa pela atriz) e não uma verbalização disso. Então, não vá apenas pela ação.
*Essa, aliás, é uma cena fiel em detalhes como posição, algumas palavras, mas sofre cortes por causa do tempo e dessa censura sobre a violência.

A trilha sonora entra aqui por um motivo simples: antes da estreia havia a maior agitação por causa da música da Taylor Swift, clipe e cd de trilha sonora sendo vendido. E, no filme, a única música que toca é realmente a da Taylor Swift, "Safe and Sound" - e como segunda nos créditos. De resto, é um instrumental simples, mas que quase ganha vida própria na história, embalando as situações na medida certa. Sem falar que, assim como o figurino e a construção de cenários, faz a mesma combinação entre passado e futuro.

E, algo que eu não queria deixar de comentar, é como é a filmagem do filme. Apesar de ser um filme grande e com tudo para ser dentro do padrão, ele acaba experimentando mais as possibilidades. São várias as vezes que a imagem (ou até a música) te colocam na situação do personagem. Seja para mostrar o nervoso da Katniss ao entrar em uma entrevista (todo mundo falando, falando demais, muita gente, muita gente olhando), seja a Rue ouvindo aquela música. Ou a imagem fora de foco ou tremida, como se você estivesse ali no corredor junto com eles. Nem todos gostam (e estão acostumados) a um plano subjetivo, mas eu gostei da forma como o filme explora isso.

Se eu não tivesse lido o livro...

Se não existisse o livro, eu provavelmente continuaria gostando do filme, porque consegue emocionar, embalar e tem uma preocupação a nível de detalhes. Apresenta o tema de modo superficial, sim, o que seria o ponto negativo, mas ainda está (quase) tudo lá para quem quiser desenvolver. E eu não duvido nada de que eles mesmo façam isso nos próximos filmes. Só os mais exigentes com conteúdo é que vão tropeçar (o que fica claro nas críticas que saíram). Além disso, falando de qualidade, está acima da maioria lançada ultimamente. É um filme estranho-original que vale a pena assistir.
*não me atrevo a dar uma nota nessa visão, ainda não.

A minha única ressalva quanto ao filme (decididamente um ponto negativo), é que às vezes os efeitos utilizados são muito ruins (estou dizendo às vezes, porque na maioria eles acertam). É algo visível e quando aparecer você vai saber exatamente do que eu estou falando. É uma pena...

Mas como eu li o livro...

Agora, como quem leu o livro, eu dou 5 conversinhas (nota máxima). Não só porque eles se preocuparam em fazer uma adaptação fiel e conseguiram reproduzir em imagens o que eu imaginava (apesar disso ser pessoal - não me pergunte por que eu imaginava os bestantes daquele jeito), o filme vale porque eles criaram um complemento para a trilogia. É quase como se a Suzanne Collins decidisse escrever um novo livro que conta tudo em terceira pessoa e de outra perspectiva, trazendo mais detalhes ao que já conhecemos.

O "quase" é porque, infelizmente, há algumas modificações feitas na história original para facilitar no tempo e construções de significados (como de onde veio o mockingjay/tordo ou a questão da perna do Peeta, que foi mais por causa de tempo). Contudo, na maior parte o filme trabalha mais com omissões do que com modificações. O Haymitch não aparece na cena da colheita, mas não significa que ele não estivesse lá. Os ajudantes do estilista dela não aparecem realmente, mas não significa que não tenha acontecido tudo aquilo que lemos no livro. O mesmo serve para a cena da caverna (ou deveria dizer toca?). Como eu disse, é uma nova visão (na verdade, a Suzanne Collins também disse isso). E se ela fosse escrever um livro assim, como o que eu imaginei no parágrafo anterior, ela não repetiria todos os fatos exatamente, faria um resumo com os principais, que é exatamente o que o filme faz (novamente: o que não significa que não tenha acontecido). Se você reparar, a maioria das coisas e até características dos personagens (tipo o Peeta mais amável e Prim fofinha) que não ficam claras, fazem parte de uma perspectiva da Katniss, que realmente não é o foco do filme.

Só uma pergunta: quantas adaptações são fiéis e ao mesmo tempo acrescentam na história que você conhece? Os primeiros filmes do Harry Potter, por mais próximos que sejam dos livros, são só uma versão em imagens do que conhecemos. Ou os do Percy Jackson e Eragon, são uma picotação em imagens distorcidas do que nós já vimos. Millennium, tanto o americano quanto o sueco, são em termos de adaptação quase tão bons quanto "Jogos Vorazes", mas eles são menos que o livro. O filme "Jogos Vorazes" é, também, menos que o livro, mas só porque ele também está acrescentando uma nova perspectiva e mais detalhes.

Se não é pelo filme em si, "Jogos Vorazes" vale a pena porque traz uma nova visão sobre a relação filme e livros, não um sendo uma adaptação barata do outro, mas uma expansão do que nós já conhecemos.

>>>Extras: "Jogos Vorazes" e o Oscar
Há mais de um ano, quando começaram a falar sobre o filme, saiu a data prevista para a estreia: março. E logo eu vi um comentário falando que esse era um período estratégico para lançar filme, não só porque não é uma temporada de grandes estreias (ou seja, sem concorrência), mas também porque está na "poeira do Oscar". Quando chegar janeiro do ano que vem, o filme já vai estar quase (quase) esquecido e se não houver indicação as pessoas não vão ter tanto ataque, é uma forma de se livrar de críticas.

Aqui no CC nós também passamos fevereiro inteiro falando de Oscar e não tinha como eu não pensar nisso e tentar colocar "Jogos Vorazes" ao lado dos grandes títulos que se colocaram como obra de arte na premiação. A conclusão foi: o filme, decididamente, não está entre eles. Não está porque é um filme mais jovem (e coisa de jovem é sempre criticada) e porque trabalha com fantasia e ficção cientifica, estilos que sozinhos já caminham na rota alternativa. A crítica cruel que o filme poderia trazer foi revestida de caricaturas e, como eu já falei umas mil vezes, é meio superficial, o que deixa o filme ao lado de um concorrente do Oscar não premiado, "Histórias Cruzadas", porque é comercial demais. Se somar todos esses pontos "negativos", acho difícil o filme entrar como concorrente em potencial. A não ser que 2012 seja o apocalipse dos filmes ruins.


Classificação:
(5/5 conversinhas)

sábado, 17 de março de 2012

Centro de Treinamento: análises da trilogia Jogos Vorazes


Bom dia (boa tarde, boa noite), tributos. O terceiro Centro de Treinamento é para os tributos que estão no nível médio ou avançado de treinamento, que em outras palavras significa "leram o primeiro livro ou a trilogia inteira". Spoilers do primeiro rolam solto e quando aparecem spoilers dos dois últimos há aviso. Novamente, é um post formado por vários tópicos e você pode escolher o seu "preferido" e ler na ordem que quiser. Ah, e não deixe de ser um voluntário.

Jogos Vorazes abre espaço para tanta discussão que já há vários livros dedicados a isso, posts, conversas em grupo do facebook ou em mesa de bar (...). Então, logicamente, é impossível abordar tudo em um só post. Aliás, até na edição final desses tópicos saiu muita coisa (Katniss é um garoto? Ficção científica?! Dominação alienígena?). Mas eu acredito que nós conseguimos juntar 5 tópicos interessantes e que fazem a gente (re)pensar a história. 


Os fenômenos da literatura jovem

Jogos Vorazes como todo grande bestseller, mistura elementos diferentes dentro de um novo contexto. Harry Potter trouxe uma nova visão sobre a bruxaria e utilizou isso como algo legal e possível no mundo atual, criando um universo gigante. Crepúsculo pegou os temíveis vampiros que protagonizavam em histórias sangrentas e os colocou de fundo em um romance atual com todo aquele clima de escola. Já Jogos Vorazes os gladiadores são retirados do passado e jogados dentro de uma arena em um futuro distópico, que é o contexto de um livro que fala de sobrevivência e traz a realidade sob uma nova perspectiva. (ufa! ah, não, calma aí. faltou dizer que também tem ficção científica)

Só por isso, dá para imaginar como Jogos Vorazes se destaca. Não estou nem dizendo que um é melhor do que o outro, mas que ele tem um diferencial. Além de vários elementos misturados, é um livro que, mesmo estando ao lado desses dois e muitos YA, tem um tom mais pesado e adulto. Isso porque Suzanne Collins não se concentrou apenas em criar um mundo legal e trazer valores para os jovens (ela não precisou, já tinham feito isso), a autora procurou nos ensinar sobre a realidade. Ela quis dizer: o mundo é lindo, maravilhoso (ou não), as consquistas são ótimas, mas há um longo caminho. Ela quis mostrar a guerra não como o jornal (que traz supostamente a realidade) ou a maioria dos filmes fazem, quis mostrar do ponto de vista de quem participou. 

Uma diferença substancial desse tratamento pode ser vista comparando os finais de Harry Potter e Jogos Vorazes, ambos com guerra. O último livro de HP é quase um massacre quartenário sozinho (Katniss tem sorte da J.K. Rowling não ser uma gamemaker), mas no final quando o do mal perde e tudo fica bem, nós não sentimos nem metade dessa perda. Na verdade, nós temos até dois epílogos bem parecidos e que trazem um toque de esperança, mas um faz você sorrir e se animar enquanto o outro te faz sentir a imensidão de tudo o que aconteceu. Nós estamos muito acostumados a ver a guerra do nosso país (ou nosso lado) como a nossa guerra e achar que tudo ficar bem para o país é ficar bem para gente, a visão que Jogos Vorazes trouxe é justamente o contrário: tudo bem que melhorou, mas e o nosso lado? (Suzanne Collins simplesmente picotando anos de ideologia criada pela mídia)
*novamente: não estou dizendo que um ou outro é melhor. eu adoro os dois finais (mentira, eu queria saber mais sobre a Luna).

Qual é o seu distrito? Qualquer um. 

Algo que me chamou atenção foi quando começaram a circular os testes de "qual é o seu distrito?". Eu fiz um com algumas perguntas de acordo com a personalidade que me mandou para o Distrito 3. Sei lá, talvez quem goste de carvão vá para o 12. Ou quem goste de uma praia fique no 4. Esses testes, claramente, são uma herança de séries como Harry potter ou Percy Jackson, em que você vai para a sua casa ou encontra o seu pai de acordo com a sua personalidade. Bem, o que me chamou atenção no testes foi exatamente isso: o distrito não tem nada a ver com a personalidade. 

Você não escolhe o seu distrito, você não escolhe se é pobre ou rico e muito menos se vai participar de um reality show que pode custar a sua vida. Você poderia ser o novo Steve Jobs, mas se nascesse no Distrito 7 que diferença faria? O Peeta poderia ser um grande pintor, mas quais chances ele teria de desenvolver alguma coisa se não fosse parar nos Jogos Vorazes e ficasse em casa fazendo pão eternamente? Ou pior do que isso, como ele tem vários irmãos e não é o mais velho poderia ter que ir trabalhar nas minas. 

Então, esse é mais um dos diferenciais de Jogos Vorazes: em todos há uma divisão, mas nesse você não vai para o lugar de acordo com quem você é, você é alguma coisa de acordo com o lugar que você vive. 

Essa forma de pensar da Suzanne Collins fica clara no trabalho cuidadoso de criar a metáfora do Mockingjay (tordo). O pássaro surgiu da mistura de um bestante criado pela capital, o Jabberjay (gaio tagarela), com um pássaro natural, o Mockingbird (tordo). O jabberjay foi praticamente exterminado quando viram que não funcionava como queriam, mas como não achavam tão importante largaram alguns por aí nos lugares mais afastados (tipo o distrito 12...). Com o tempo, o jabberjay se misturou ao mockingbird e acabou surgindo uma nova espécie, o Mockingjay (tordo). Do mesmo modo, a Katniss nasceu no distrito mais afastado onde o poder da Capital (não natural) não é tão forte assim e de certo modo uma vida comum pode ser levada (os pacificadores não aplicam muitos castigos e até compram da caça ilegal da Katniss). Ou seja, ela é meio que uma criação da natureza dentro de certo contexto.

Você pode dizer que se fosse assim todos os habitantes do Distrito 12 seriam Mockingjays, então vale a pena lembrar que essa falta de controle nesse distrito fez com que pessoas diferentes surgissem. Ela cresceu sustentando a família (em um outro distrito poderia ser mais fácil descobrirem isso) e ela também se acostumou a desafiar a leis acima da medida. Isso faz do Gale um Mockingjay quase tanto quanto ela, mas há algumas diferenças entre os dois. Ele vai atrás de vingança, ela de se livrar. Ele tinha a mãe, ela nem isso. Ele queria melhorar o mundo (pelo menos o próprio), ela se fechou ao mundo. Ah, e ele ficou em casa sustentando duas famílias sozinho e vendo a Katniss e o Peeta pela TV, enquanto ela desafiava a Capital pela própria vida. 

Em outra palavras, Jogos Vorazes trabalha com a ideia de que boa parte de quem você é depende das condições em que você vive, diferente dos outros livros em que você praticamente já nasceu com as suas características.
*É claro que nenhum deles é algo absoluto, Harry Potter trabalha o tempo inteiro com o conflito entre "será que eu deveria ter ido para a Sonserina?" e a resposta é de que você é responsável pelas próprias escolhas (Snape tá aí pra isso), mas é em Jogos Vorazes que isso é marcante. Além de uma forma de mostrar como a sociedade é injusta. 

Distopia e Utopia

No primeiro Centro de Treinamento nós falamos sobre distopia e explicamos o que é (se você não sabe, leia aqui). Aqui eu vou falar um pouco de como isso funciona em Jogos Vorazes.

Bem, se a Capital tivesse um lema, provavelmente seria "vamos dividir para dominar". Essa é a principal fonte do poder deles.

  • 1- Jogos Vorazes: Só um sai vivo. Você pode amar outro tributo, mas automaticamente já há uma carga de desconfiança. Você nunca vai saber se o seu aliado vai decidir acabar com tudo no meio da noite (e, se ele fizer, não vai saber mesmo). Até trabalho em grupo já é difícil fazer porque tem que confiar no outro, imagina em um jogo que a sua vida é o que está sendo apostado? 
  • 2- 12 distritos: A população já é dividida normalmente. Você não sabe quem são os outros, o que eles fazem e nem nada do tipo (lembra que a Katniss achava que por ser o distrito da agricultura eles tinham mais comida?). Como é que você vai fazer uma revolta junto com alguém que você nem conhece? E mesmo que você tentasse fazer sozinho, os outros sem saber o que está acontecendo poderiam se voltar contra você.
  • 3- Em cada distrito: Dentro dos próprios distritos há uma divisão, já que há os "pobres" e os "ricos". Como a Katniss observa, até na hora da colheita mesmo que todos sejam obrigados a colocar um papel no sorteio, os mais pobres colocam mais para ter direito a uma cota extra de comida. Ou seja: ou você morre de fome ou arranja mais chances "a seu favor", enquanto alguns ficam com as pernas para o alto sem precisar disso. Sem falar que são dois tributos por distrito lutando um contra o outro.  *os pacificadores são gente de onde mesmo? de um distrito?   

Fica extremamente difícil ir contra a força da Capital, a não ser que você tenha um símbolo de esperança que se conecte com todos os distritos. Aí... 

Além disso, a Capital trabalha de várias maneiras para manter o domínio. Cada distrito é responsável por uma área, de modo que eles não são auto-suficientes, dependem da boa vontade da Capital para ter uma coisa ou outra necessária. Os próprios Jogos Vorazes são um castigo e um aviso à população: ei, nós podemos levar os jovens de vocês embora, obrigar vocês a assistirem eles se matarem e, no final, fazer com que vocês festejem a morte de 23 pessoas. Ligado a isso, nós temos a propaganda. Através dela é que as pessoas conhecem a Capital, os Jogos Vorazes e o que aconteceu ao Distrito 13, mensagens constante de "vocês não podem fazer nada". O medo e a violência também acompanham os passos das pessoas que vivem nos distritos, que podem ser espancadas em praça pública por muito menos do que nós fazemos no nosso dia a dia. 
*vale lembrar que o ensino na "escola" também é manipulado. 

O livro apresenta muitos detalhes típicos dos totalitarismos que existiram (tipo o nazismo e o stalinismo*), comuns em distopia. Acho que a maior diferença, provavelmente por causa da Suzanne estar mais preocupada com os efeitos de uma guerra do que com uma crítica social, é que isso aparece mascarado. Por exemplo, em "1984" do George Orwell, uma das raízes de Jogos Vorazes, temos nomes como "Polícia do Pensamento" e "Ministério da Verdade", de modo que a história parece uma caricatura de uma realidade. Já em Jogos Vorazes há algo parecido, mas de um modo singelo, como os "Pacificadores", que trazem violência em vez de paz. 
*Spoiler de "A Esperança": a capital e o distrito 13, hein?

Por outro lado, a maioria das coisas estarem abaixo da superfície pode ser porque o livro é mais sobre o agora do que sobre a época em que o mundo era dividido por potências. Quer dizer, isso ainda é uma realidade, mas muito abaixo da superfície. Hoje em dia nós vivemos muito mais em um mundo de ideias, significados e coisas do tipo. Veja mais no próximo tópico.


Agora a utopia. A utopia é mais complexa que distopia e, para muitos, imaginária. Isso porque a utopia é aquele mundo perfeito e se alguém soubesse como é um mundo perfeito, não estaríamos aqui falando sobre isso. Mas há um pouco dela em Jogos Vorazes e muita gente nem percebe. Como a Rachel Sena observou no primeiro Centro de Treinamento quando eu falei um pouco sobre isso, a utopia da trilogia está na Capital. Apesar de não sabermos muito sobre como é a vida lá (infelizmente) temos informação o suficiente para ter uma ideia.

Assim como em "Fahrenheit 451" (ou até em livros atuais, como "Destino" ou "Divergent"), a noção de distopia parece relacionada a utopia, simplesmente pelo fato de que numa tentativa de fazer todo mundo ser igual e feliz perceberam que isso não era possível, então o governo, que trabalha com mão de ferro para todo mundo ser "feliz", acaba sendo injusto com quem percebe que não é bem assim e a confusão começa. Mas em Jogos Vorazes aparece uma relação alternativa de distopiaXutopia (também encontrada em Apocalipse Z): vamos fazer 90% da população trabalhar, enquanto 10% aproveita tudo em segurança. Distopia para todos e utopia para um. 

Na Capital as pessoas apresentam uma futilidade parecida com a das pessoas de "Fahrenheit 451", que parecem não pensar e aproveitam tudo sem preocupações. Novamente, Jogos Vorazes se destaca com uma utopia menos caricaturada e mais a ver com a nossa realidade. Sim, nós comemos até não poder mais (e não precisar), enquanto gente morre de fome. Na verdade, existe até algo chamado "bulimia", em que as pessoas comem até não poder mais e depois vomitam. É claro que a pessoa fica doente, passa mal, o que é um problema. Mas seria um problema se não tivesse o efeito negativo? Nesse tempo todo, ainda tem gente passando fome. 

Se vestir como quiser, comer a vontade, aproveitar festas, assistir jogos para se distrair... tudo isso sem grande parte do lado negativo atual e na visão de alguém que vive em uma distopia? É quase o paraíso. E já que estamos falando de paraíso, essa é uma mensagem secreta no meio do post, o que significa que se você está lendo e é do Rio de Janeiro, pode comentar dizendo "eu encontrei a mensagem secreta" em caps que leva um ingresso para a pré-estreia de Jogos Vorazes no Rio de Janeiro (downtown, 8:30, dia 22). O primeiro a encontrar e comentar leva, deixe o seu email.

Realidade vs. Ilusão (real or not real?)
*Esse é um dos tópicos mais interessantes para comentar e que eu encontrei por acaso no livro "The Girl Who Was on Fire", então eu meio que usei como base, mas não li tudo e estou desenvolvendo "sozinha", o que pode trazer uma perspectiva diferente. 

No nosso mundo real, passamos por um período em que o que a pessoa parece ser acaba sendo mais importante do que o que a pessoa é. O livro trabalha em vários níveis com essa ideia. Temos a Katniss na arena manipulando quem assiste; Temos os Jogos que para a capital são uma diversão e forma de se distrair da vida; Temos o próprio livro em si que é uma "ilusão", mas se comunica de várias formas com a nossa realidade; Temos a obsessão pela aparência entre as pessoas da Capital. (...)
*Quando de um livro podem ser tirados tantos detalhes, chegamos a duas opções: a) Suzanne Collins é um gênio b) inspiração divina e ela não tem consciência de metade do que fez - eu fico com a segunda.

A Katniss, nossa protagonista, tem sérios problemas com a falsidade. Haymitch não aguenta a incapacidade dela de fingir ou falar da própria vida na entrevista; Ela é quase paranóica de tanto que suspeita de todo mundo; Só consegue gravar as "propagandas" dos rebeldes encontrando algo verdadeiro para explorar. 
*Spoiler de "A Esperança". E mente no final dizendo que quer um novo Jogos Vorazes só para ir matar a Coin. Mais um exemplo do que essa história fez com ela... 

Já o Peeta, amorzinho da galera, não tem nem um pouco de problema com isso. Ele passa boa parte dos livros mentindo e faz isso tão bem que no fim do primeiro a Katniss nem acredita que tudo o que aconteceu entre eles tenha sido verdade. É interessante porque ele acaba sendo pego pelas próprias mentiras até não saber mais o que é realidade... Real or not real?

Enquanto o Gale, que o tempo inteiro disse a verdade para a Katniss, não foi levado a sério e no final nós vemos o que acontece. 

Haymitch, Cinna, Finnick... são todos personagens que você começa pensando uma coisa (ou a Katniss começa assim) e no final descobre que há muito mais. Algo parecido acontece com o Snow e a Coin. 

Spoiler de "A Esperança" nesse parágrafo. No final, a Katniss percebe que foi usada pela Coin* tanto quanto pela Capital, que tudo aquilo que ela fez não vale quase nada (para ela). Boa parte da impressão que passa é que a própria Katniss foi enganada depois de tudo. 

Desde o primeiro livro, a trilogia trabalha muito com a ideia de "o que é real?". Eu me lembro até hoje do estado de choque que eu fiquei no fim do primeiro livro com a reação do Peeta quando descobre que a Katniss estava "mentindo" o tempo inteiro. Era algo tipo "Do que ele está falando? Não vão ser amigos? Cadê o Gale?*". Porque o tempo inteiro eu não acreditei realmente no amor do Peeta, nem acreditei que a Katniss sentisse a mesma coisa (o que, ali, ela não sentia mesmo). Mas, como eu li em algum lugar, "Jogos Vorazes não é só sobre realidade e ilusão, mas também sobre a realidade virar ilusão e a ilusão virar realidade". 
*Spoiler dos dois últimos livros. No final do primeiro livro eu achava mesmo que era para ela ficar com o Gale, mas é o que sempre digo: isso nunca foi questão de escolher entre um e outro para ela, é uma mudança gradual que nós acompanhamos nos livros. 

Jogos Vorazes é plágio? 

Suzanne Collins ainda não sofreu nenhum processo de plágio quanto à sua obra mais famosa, “Jogos Vorazes”. Mas, mesmo assim, algumas pessoas insistem em dizer que a Trilogia é uma cópia de “Battle Royale”, livro de autor japonês Koushun Takami. Quando falam disso, meu argumento sempre é “A Suzanne e o Koushun usam uma trama muito parecida (o governo autoritário que realiza todo ano um jogo onde adolescentes tem que se matar e no final só resta um vencedor), mas seguiram caminhos DIFERENTES.”
*e, se você for pesquisar, jogar pessoas em um reality show para se matarem não é tão raro assim.

Para começar, as sociedades autoritárias de cada livro são diferentes na forma como tratam o jogo. Em Jogos Vorazes, o jogo é um reality show, todos são obrigados a assisti-lo, os cidadãos da Capital gostam de ver aquilo. Já em BR o jogo acontece sempre na surdina. O Governo prepara o local onde o jogo vai acontecer (em BR o jogo acontece em um lugar “real”, digo, não é um local específico para aquilo, a cada ano muda) e sorteia a turma de forma completamente sigilosa e a população só sabe que o jogo aconteceu quando acaba. Comparando a livros antigos, Jogos Vorazes está muito mais para uma mistura de "Fahrenheit 451" com "1984" enquanto "Battle Royale" é mais para "Laranja Mecânica". 

Não vou me alongar muito aqui porque em breve vocês vão ter uma resenha do livro. E, só mais uma coisa, como falamos no útlimo Centro de Treinamento, a autora nem sabia que existia "Battle Royale".

Battle Royale também possui uma adaptação cinematográfica e uma série de mangás, publicados no Brasil pela Conrad.

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Se você procura o resultado do par de ingressos do último Centro de Treinamento, espere mais um pouco. Nós decidimos adiar por um simples motivo: tive um lapso depois de escrever um livro no lugar desse post e esqueci de sortear. Participe enquanto há tempo e o mais rápido possível colocaremos o vencedor aqui. :)

[ATUALIZADO]


E a vencedora é... Renata (ufrj.renata@gmail.com), veja o que você tem que fazer aqui.

Se você não ganhou, não fique triste! Temos muito mais para sortear por aqui. No momento, temos a promoção em parceria com o D13.

OBS: estamos procurando tributos interessados em dar um "depoimento" sobre a série, clique aqui para mais informações.

sexta-feira, 9 de março de 2012

Centro de Treinamento: a origem de Jogos Vorazes


Bem-vindos ao segundo Centro de Treinamento, tributos. Hoje vamos falar da pessoa mais importante de Panem: Suzanne Collins. Aqui você pode descobrir como ela virou escritora (ela só começou a escrever bem tarde!), como foi começar a escrever livros, como ela teve a ideia de criar "Jogos Vorazes" e informações aleatórias. O ideal é que você passe por todos os níveis e conheça a história completa, mas fique livre para circular pelos títulos como quiser e desenvolver o conhecimento que acha mais interessante. 

Alerta: No final você encontra o nome do vencedor do par de ingressos do Centro de Treinamento da sexta passada e uma nova promoção. 


Ao contrário de muitos autores e autoras, Suzanne Collins é tímida. Faz poucas aparições em público, quase nunca dá entrevistas (isso tem mudado com o estrondoso sucesso de “Jogos Vorazes”) e recusa quase toda interação que envolva filmá-la. Pode-se dizer que a autora é – ou melhor, era - praticamente uma desconhecida. Mas entre roteiros de programas infantis e sua vida no anonimato, ela acabou criando um dos bestsellers atuais que deu origem a um dos filmes que mais promete em 2012. Como isso tudo aconteceu?

Tudo começou...

Bem, tudo começou em 1962 quando a autora nasceu, mas aqui vamos falar da carreira dela. Suzanne Collins tem um longo currículo de trabalhos: ela trabalhou na equipe das séries infantis “Clarissa Sabe Tudo” e “The Mystery Files of Shelby Woo” produzidas pelo canal Nickelodeon. Também escreveu (e escreve) diversos episódios para séries infantis, como "O Pequeno Urso" e “Wow! Wow! Wubbzy!”.

A lista completa você pode ver aqui, no Distrito 13. O que importa é que no meio dessa carreira televisiva ela se envolveu na criação de "Generation O!". Foi aí que ela iniciou uma amizade com James Proimos, outro co-criador da série. James foi capaz de ver o talento de Collins para os romances e foi ele que deu a ideia de que ela começasse uma carreira literária. A amizade dos dois se mantém até hoje (Suzanne dedicou “Jogos Vorazes” a ele!) e, atualmente, trabalham juntos em um livro infantil. Então, foi assim que tudo começou. 

Suzanne Collins, escritora

Para quem tinha uma experiência de quase 20 anos escrevendo roteiros, começar o primeiro livro não foi tão fácil. Até hoje (coloque mais uns 10 anos aí), ela afirma que fazer descrições ainda é um desafio. Em suas próprias palavras: “Roteiros são essencialmente diálogos e direções de cena. E então você só precisa confiar no diretor, nos atores e nos designers para trazer detalhes emocionais e físicos para a estória. Mas, em um livro, fica tudo por sua conta. Eu finalmente aceitei que nenhum designer vai entrar e tomar conta das partes descritivas para mim, então tenho que escrevê-las.”
*Nota pessoal/Paulo: Eu só li dois livros mais antigos dela (os dois primeiros da série Gregor), mas, comparando com “Jogos Vorazes”, a diferença na qualidade da escrita é enorme!

Fora "Jogos Vorazes", seu outro trabalho relativamente famoso é "Gregor, O Guerreiro da Superfície". Uma série composta por 5 livros e que até já foi publicada no Brasil pela Galera Record. Uma explicação rápida sobre o livro: Gregor, o personagem-título, tem uma vida difícil. Sua mãe tem que trabalhar em dois empregos para sustentar a família (ele tem duas irmãs mais novas e uma avó em idade avançada) e, para completar, seu pai está desaparecido há dois anos. Só piorando a situação, Gegor cai no duto de ventilação do prédio em que mora e encontra um mundo completamente diferente de Nova York, onde enfrenta aventuras e acaba por virar um herói. Essa sinopse te lembra a história de uma certa menina que cai na toca de um coelho? Pois é, Suzanne teve a idéia para Gregor enquanto pensava em como seria a história de “Alice no País das Maravilhas” se fosse ambientada na atual Nova York*.
*Nota pessoal/Dana: O que me lembra a "como seriam os mitos dos deuses gregos adaptados ao mundo atual"... 

Os livros de Gregor são feitos para um público mais novo do que o de "Jogos Vorazes", mas ainda há muitas semelhanças entre as duas séries (uma hora ainda vamos postar uma boa comparação aqui no CC). Uma dessas semelhanças é justamente pegar elementos de uma época e encaixar em outra. 

Jogos Vorazes: de onde surgiu, como foi escrever...

Suzanne Collins criou "Jogos Vorazes" como uma colcha de retalhos, misturando várias referências e criando algo novo e diferente. 

Para começar, a história que mais ouvimos a autora repetir por aí. "Jogos Vorazes" teve como uma das bases o mito do Teseu e o Minotauro. No mito, Atenas, como punição por ações passadas, tinha que enviar periodicamente sete rapazes e moças a Creta, onde eles eram jogados no Labirinto e devorados pelo monstruoso Minotauro. Em uma dessas vezes, Teseu, que era filho do rei, se candidatou para ir. 

Além da referência clara (24 tributos indo para a arena, uma punição para os distritos...), de acordo com a própria Suzanne, a protagonista da série, Katniss, é como um Teseu futurista. 

Mas não termina aí, Suzanne Collins também encontrou bases na Roma Antiga. Preste atenção em alguns trechos retirados do Wikipédia sobre gladiadores (escravos obrigados a lutar): "eles se enfrentavam para entreter o público", "só terminava quando um deles morria" e "faziam parte da política pão e circo". E, para quem não sabe, foi da política do pão e circo que surgiu o nome do "país" onde tudo acontece, Panem. "Pão e circo" vem do latim "panem et circenses"* (ou "panis et circenses"). 
*A política do pão e circo em inglês também é chamada de "pão e jogos" (bread and games). Os jogos são justamente as lutas entre os gladiadores. 

Conforme a história foi se desenvolvendo (principalmente em "Em Chamas" e "A Esperança"), Suzanne percebeu que Katniss era mais do que um Teseu futurista. Novamente olhando para a Roma Antiga, ela falou em uma entrevista que para a trilogia a figura de Espártaco (ou Spartacus, tem até uma série sobre ele) se transformou mais no modelo de Katniss. 
"Nós não sabemos muito sobre a vida dele, mas existiu um homem chamado Espártaco que foi um gladiador que saiu da arena e liderou uma rebelião contra um governo opressor"
Outra inspiração dela também é interessante. E sabe quando a autora teve esse insight? Assistindo televisão! Bem, um belo dia Suzanne resolveu zapear entre os canais de televisão e eis que ela passa de um reality show para imagens da Guerra do Iraque. Ela imaginou como seriam os dois juntos e teve a idéia de... UM REALITY SHOW ONDE AS PESSOAS SE MATAM. Pois é.

As imagens aqui usadas são do Fame Suzanne Collins, uma graphic novel sobre a vida da autora.

Para quem conhece a autora, sabe que é filha de um veterano na Guerra do Vietnã e que seu pai sempre contou histórias de guerra para os filhos. Foram essas histórias e o próprio pai que influenciaram em boa parte do que acontece nos livros. Antes dele morrer, ela até discutia sobre as táticas de guerra aplicadas em "Gregor, o Guerreiro da Superfície" com ele. Em "Jogos Vorazes", não é diferente. Apesar de não haver a presença física do pai, há vários detalhes que ela buscou nos ensinamentos dele. Como ele cresceu na época da Grande Depressão, chegou a caçar para ter comida em casa e conhecia sobre plantas próprias para alimentação. 
*Não parece com o pai da Katniss? 

Além disso tudo, para criar os livros também houve um longo processo de pesquisa (que inclui a leitura de vários guias de sobrevivência). 

Informações aleatórias e curiosidades

Agora vamos falar de um elemento que é intrínseco às histórias de “Jogos Vorazes” e “Gregor, o Guerreiro da Superfície”: a guerra. Alguns críticos e até mesmo leitores se perguntam como é que esses podem ser livros para jovens se tratam desse assunto, como se fosse um absurdo. Mas não é. A ideia da Suzanne é justamente essa: falar de guerra para crianças. Desde que a própria escritora era uma, ela e seus irmãos ouviam histórias sobre a guerra. Suzanne afirma que o que ela escreve é perfeitamente aceitável para cada faixa etária, ela fala sobre a guerra e encaixa o seu protagonista – que é da mesma idade do público alvo – e os transforma em parte importante da guerra. A autora defende que é necessário que os leitores venham carregando conhecimentos de guerra para o maior entendimento e do que acontece no mundo.
"O interesse principal de Suzanne é 'o que é uma guerra justa?'. Ela tem uma preocupação especial com os efeitos da guerra em uma pessoa." - dito em uma entrevista por Kate Egan, editora dos livros.
Quando perguntaram para ela por que ela decidiu fazer "Jogos Vorazes" para um público mais velho do que o de Gregor, ela respondeu que não dependia do público, mas sim do assunto a ser tratado. Nos próprios livros de Gregor, conforme a série avança, os temas vão ficando mais sérios porque os leitores que estão acompanhando já criaram uma base.

Uma coisa curiosa a comentar sobre Collins é que ela nunca foi envolvida em um grande processo de plágio – diferente de J. K. Rowling e Stephenie Meyer. Há, sim, muitas comparações entre "Jogos Vorazes" e "Battle Royale", que compartilham de eixos muito parecidos, mas a própria autora desconhecia o segundo até entregar o manuscrito e perguntarem se ela havia se inspirado em "Battle Royale". Até hoje ela não leu o livro, nem o mangá e nem assitiu o filme de "Battle Royale". 

Desde o início a autora apoiou e acompanhou a produção da adaptação de "Jogos Vorazes". Fez uma versão do roteiro (sorte a nossa que ela também é roteirista, né?), acompanhou as próximas versões, esteve na escolha dos principais atores e participou tanto quanto possível da criação do filme. Recentemente ao assistir deixou uma mensagem para os fãs expressando seu contentamento com o resultado. 

Suzanne Collins recebeu diversos prêmios por seus livros, que você pode ver aqui. 

Comentários finais

Queríamos colocar muito mais aqui, porque encontramos entrevistas e informações realmente boas. Então sugerimos que leiam: em inglês, essa entrevista*, essa e essa. E em português essa, essa e essa. Vale muito a pena para ter uma ideia geral de como ela escreveu, como para ela é "ser autora"...
*Se alguém souber dessas em português, nos avise. E essa primeira é a minha preferida. :)

Promoções: 
E o vencedor do primeiro par de ingressos do Centro de Treinamento é... Rachel Sena, veja o que você tem que fazer aqui.

Se você não ganhou, não fique triste! Temos muito mais para sortear por aqui. No momento, temos outra rolando no twitter até quarta. E agora liberamos mais uma promoção: outro par de ingressos para a promoção da pré-estreia de Jogos Vorazes no Rio de Janeiro (dia 22, 8:30, Downtown). 

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