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quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Discussão: Você conhece os dois tipos de distopia?


Faz tempo que eu penso em uma forma de discutir distopia aqui no blog, porque MUITA gente se perde com esse tema. Até porque esse é um subgênero (ou gênero?) que não é tão fácil de se definir. Depois de muito quebrar a cabeça eu percebi que o problema é simples: existem duas formas de entender por aí. Elas já não são muito claras, o que causa mais confusão ainda. Vamos tentar ajudar um pouco mais.

Se você quer saber mais sobre isso, quiser discutir a classificação de livros, dar a própria opinião sobre distopia, pegar a dica de filmes/livros legais... vamos em frente!

Como base, vou usar dois posts: o "Distopia: uma origem política" do Nem Um Pouco Épico (NUPE) feito para a Dominação Distópica que conta a origem do termo "distopia"; e "O Futuro da Humanidade Segundo a Ficção Científica - Parte 2: Distopia" da Flávia Gasi que eu encontrei no Omelete e foi o empurrão que faltava para me fazer discutir aqui no CC. Eu não vou resumir o que foi dito neles, vou analisar para discutir as duas definições de distopia.

Numero 1: O mundo cruel
"Utopia é o lugar bom, ideal, com coisas impraticáveis e a distopia (ou a cacotopia) é a anti-utopia, o oposto dela." - retirado do Nem Um Pouco Épico.
Ou seja, é possível resumir distopia como "uma alternativa para o nosso mundo extremamente negativa" (enquanto a utopia seria o modo extremamente positivo). Acredito que é essa a linha de pensamento da maioria das pessoas, inclusive da Flávia Gasi do Omelete. Não é errado, é só abrangente. Por isso a distopia = situação extremamente negativa acaba resultando em várias possibilidades. 

Alguns diriam que é utopia...
No post do Ometele ela cita distopia totalistarista (eu diria, clássica), que é essa de governo opressor vs. oprimido; A distopia tecnológica ("'high tech, low life', isto é, quanto maior o conhecimento científico, pior a qualidade de vida da população"); a distopia pós-apocalíptica é aquela da história da pessoa se virando depois que aconteceu algum apocalipse (guerra nuclear, desequilíbrio da natureza e todos esses aqui); E ainda: criminosa, prazerosa, alienígena, feminista e corporativa. 

É tudo uma situação ruim e o termo distopia quase não se sustenta sozinho. Essa "distopia tecnológica", que ela cita, é também conhecida como Cyberpunk (já falei aqui). A pós-apocalíptica poderia ser simplesmente pós-apocalíptica. Muitas das outras, como a alienígena e a corporativa entram quase como a distopia totalistarista, a diferença é que não é o Estado oprimindo. 

Dizer que um livro é distopia, nesse caso, pede em seguida um "como o mundo está muito ruim dessa vez?". A pessoa não tem como saber se o livro vai falar sobre a sobrevivência num cenário destruído, criticar a desumanização causada pelo excesso de máquinas, ser uma simples aventura em busca de algo perdido ou colocar em evidência o abuso de poder. 

Eu diria que é mais uma definição esvaziada, sem muito propósito. É por isso que prefiro a visão mais definida do termo "distopia", que é o segundo caso. 

Número 2: LIBERDADE! 

Retomando o post do NUPE e a origem do termo, John Stuart Mill falou em distopia descrevendo a situação Reino Unido vs. Irlanda. 
"Em 1829, o Reino Unido reconheceu a Irlanda como parte de seu território, mas não lhe deu liberdade para tomar suas próprias decisões." - NUPE. 
Em outro trecho retirado de lá, que é o meu preferido, explica bem como John Stuart Mill via essa situação para usar o termo "distopia":
"O contexto é claro: as ações e intenções do governo têm sido tão ruins que ele é o oposto de uma utopia. Mas prestem bastante atenção: no caso, as coisas ruins são as coisas que são contra as ideias de Mill. Ele defende a liberdade pessoal e não a opressão do estado, defende a igualdade entre as pessoas e não a superioridade."
Nesse momento, no entanto, o termo não tinha nada a ver com classificação de literatura. Só depois, quando surgiram textos que falavam sobre uma sociedade no futuro com governos totalitaristas, meio que refazendo histórias que essencialmente (atenção para o essencialmente) repetiam as críticas de Mill, o termo distópico foi utilizado para descrever literatura. De lá para cá isso já mudou muito, foi desenvolvido de mil maneiras e levou a todas essas confusões/interpretações.

Mas se pegarmos essa ideia inicial e fizermos uma síntese absoluta de uma explicação mais definida de distópico: seria a situação que de alguma forma a liberdade é limitada de modo negativo e o livro distópico se desenvolve em cima disso. Na maioria das vezes, como crítica ou alerta. Algumas, o autor só quer discutir o caso, mas ainda assim essa quebra de liberdade é o que está em jogo. 

Normalmente essa história acaba se desenvolvendo com o opressor (aquele que limita, o governo, a corporação, o alienígena) e o oprimido (o que é limitado), que é a visão clássica da distopia. As histórias normalmente se passam no futuro (quer coisa melhor para alertar do que algo com cara de "olha o seu futuro"?), então normalmente as tecnologias são mais avançadas e servem como instrumentos para limitar essa liberdade. Quando o teor é de crítica, muitas vezes aproveitam para exagerar problemas atuais e destacá-los. 

A forma de limitação da liberdade de forma negativa varia dependendo de como o autor leva a história. Alguns casos são extremos, como acontece em 1984 e de certo modo em Jogos Vorazes, que o personagem passa por um processo de "desumanização" (perde a liberdade de ser). Outros exemplos: Em Fahrenheit 451 a pessoa perde a liberdade de pensar. Em Destino - Matched a pessoa perde a liberdade de ser diferente/decidir. No fim das contas, as pessoas perdem as liberdades básicas. Pegue uma lista de declaração dos direitos e crie um mundo restringindo tudo o que tem lá e mais um pouco. 

Talvez a tal versão extremamente negativa do nosso mundo seja essa onde perdemos a liberdade de ter direitos...

Número 3: Qual é a certa?

Não sou eu que decido o que é certo ou errado, o certo provavelmente vai ser o que "cair na boca do povo" (já transformaram o valor de nerd de negativo para positivo, como mostrei aqui). Mas ver que existem essas duas interpretações e o que cada uma significa com certeza ajuda na hora de pensar o que você está lendo/assistindo. Quando alguém fala usando uma definição, como a Flávia Gasi e o NUPE fizeram, escolhe um dos dois lados. E, quem está perdido no meio do caminho, fica mais confuso ainda quanto ao que é e não é. 

Pessoalmente, prefiro a segunda definição (mais específica). Se a gente for pela primeira, dá pra dizer até que Resident Evil(!) é distopia. Dá quase abertura para dizer que distopia é algo real ("ah, as criancinhas que passam fome na África vivem uma distopia"), o que não é. 
Distopia em histórias, de acordo com a primeira definição: Livro/filme/música/... que apresente um sistema (tipo de organização da sociedade) extremamente ruim. Seja lá o que você chamar de ruim. Em cenários normalmente relacionados à ficção científica.
Distopia em histórias, de acordo com a segunda definição: Livro/filme/música/... que apresente um sistema que limite a liberdade de modo negativo e o foco do livro seja discutir/exemplificar isso.

Semana que vem eu volto para analisar com base nessas definições alguns livros recentes que muita gente fica naquela dúvida: é ou não é? Se tem algum que você quer saber, nos diga que incluímos no post! Fique livre para colocar a sua opinião, seja qual for. :)

Veja mais:

sexta-feira, 30 de março de 2012

Centro de Treinamento: Jogos Vorazes - Real or not real?


Bem vindo ao nosso último Centro de Treinamento, tributos. Hoje nós vamos ver a realidade através das páginas de Jogos Vorazes. Seria impossível dizer tudo (e dizendo quase nada o post ficou bem grande), mas já dá para começar a reparar nas coisas. Novamente, o post é feito para você circular entre os títulos de preferência. Além disso, é uma boa opção para quem quer/precisa estudar História e quer largar um pouco os livros da escola.

Com o lançamento do filme, muita gente aleatória acaba entrando em contato com a história criada por Suzanne Collins. Foi esse o caso do meu primo, que assistiu "Jogos Vorazes" e disse para mim:
 "Eu achei bom, mas... não é muito o meu estilo, é muito fora da realidade"
Dá para entender parte do ponto de vista dele, mas a questão é: será que é mesmo fora da realidade? Será que é só sobre um futuro distante e não temos nada a ver com isso? 

Aviso: esse post é para quem já leu pelo menos "Jogos Vorazes", tem bastante detalhe "estrutural". Quando tiver do segundo ou terceiro livro há um aviso.

O passado...

As guerras, de uma maneira geral

Um dos pontos mais originais da história criada por Suzanne Collins é o modo como ela trata a guerra. E não estou falando de criar muita ação, tiroteiros e invasões. Estou falando da forma de como entender a guerra. Eu nunca tinha visto um filme ou lido um livro que mostrasse essa situação que é muito real e às vezes deixamos passar: tudo o que perdemos pela guerra. Normalmente, vencer a guerra significa a vitória do personagem que nós acompanhamos, não importa o quanto ele tenha perdido para conseguir isso (em Harry Potter, por exemplo). Além disso, a história do país é mostrada como a nossa história, como se nós tivessemos escolhidos participar disso tudo e fosse o nosso objetivo vencer. 

O livro faz esse descolamento entre país e indivíduo, mostrando que são duas histórias diferentes e que interesses próprios fazem com que elas se unam ou se separem. Não vou me estender aqui, mas essa é uma das histórias de guerra mais próximas da realidade, sem toda a propaganda pró-guerra embutida. 
*Uma comentário extra: temos um exemplo bem recente da forma tradicional de retratar a guerra e o exército no clipe "Part Of Me" da Katy Perry. A mulher forte, que escolhe participar, lutar pelo próprio país... É interessante que enquanto ela canta "This is the part of me that you're never gonna ever take away from me" está no meio da guerra e parece essa pessoa inquebrável. Em Jogos Vorazes mostra bem o contrário. Outro exemplo de criar uma visão positiva disso foi o "Salute The Troops". 

Análise de caso: Ditaduras reais e Guerra Fria

Eu não estou aqui para dar uma aula de História sobre ditaduras do mundo que (supostamente) aprendemos mais cedo ou mais tarde na escola. Hitler, Stalin, Mussolini* e muitos outros são os nomes que nós ouvimos e foram os símbolos de sistemas muito parecidos com os de Jogos Vorazes. Se quiser, eu já falei sobre distopia aqui e você pode ver sobre ditaduras aqui, que são muito parecidas.
*Você sabia que em Harry Potter o fundador da Sonserina, o Salazar Slytherin, teve o nome inspirado no "ditador" de Portugal, António de Oliveira Salazar? No jogo Resident Evil 4 também há uma Salazar nada amigável. E, aqui no Brasil, temos a autora Luiza Salazar, que não tem nada a ver com isso (eu acho). 

O que eu vim falar aqui hoje é sobre a Guerra Fria e essas ditaduras que aconteceram em vários países, inclusive aqui no Brasil. Ah, e o que isso tudo tem a ver com Jogos Vorazes.

Atenção: spoilers dos três livros daqui para baixo, inclusive importantes de "A Esperança". Terá aviso no fim dos spoilers dessa parte.

Quando eu fiz um resumo com os possíveis tópicos para esse post, o Paulo me perguntou: como assim o Distrito 13 pode ser a União Soviética (URSS) e a Capital pode ser os EUA? 

Simplificando ao máximo, é assim: Os EUA, o capitalismo e boa quantidade de ditaduras (como a brasileiras), representam Panem. Esse lado é um pouco mais complexo, porque é metade do mundo mistura para representar um só país fictício. Já o outro lado, da URSS e das ditaduras comunistas (como a China), representam o Distrito 13.

Vou começar pelo Distrito 13, que é mais fácil. 
"O comunismo é uma ideologia política e socioeconômica, que pretende promover o estabelecimento de uma sociedade igualitária, sem classes sociais e apátrida, baseada na propriedade comum e no controle dos meios de produção e da propriedade em geral."
Ou seja, tudo é do povo e é o próprio povo que consegue tomar o poder. Quase a busca da sociedade utópica em um sistema que, se tivesse passado da teoria, poderia ser algo parecido com o mundo de "Destino" da Ally Condie. Isso também é mais ou menos o modo como o Distrito 13 se organiza (comida dividida, lugares para morar, as roupas, trabalho...), tudo dentro de uma "igualdade". Mas, como nós vemos nos comunismos e no D13, as pessoas começam a viver infinitamente em uma situação precária e de esforço coletivo, ouvindo ordens de alguém, para chegar a um futuro ideal que parece nunca chegar. Pior ainda: corre o risco do poder ser dominado por alguém que esqueça os objetivos iniciais (ou os ignore) e governe com mão de ferro, transformando tudo em uma ditadura onde a igualdade se transforma em uma forma de restringir a liberdade.

Enquanto isso, a Capital (ou EUA) é o lugar dos sonhos, dos prazeres, da diversão e com acesso a tudo. Já os distritos (ditaduras pelo mundo*), acabam sofrendo com a mão de ferro do governo e trabalhando para sutentá-lo. Alguns, enxergam a opressão como uma forma de ir para frente, outros se viram como podem e sofrem as consequências. Nos distritos, se sofre todo o tipo de problema comum das ditaduras (falta de liberdade, exploração, manipulação ideológica...). 
*Se vocês pularam algumas aulas de História, os governos capitalistas estabelecidos (praticamente, só os EUA) incentivaram as ditaduras pelo mundo, inclusive a brasileira. Nós, brasileiros, não estivemos sob um regime comunista, mas sofremos uma ditadura (que é muitas vezes deixada fora de pauta, mas muita gente foi assassinada ou torturada, se não concordava com o governo. Isso no Brasil. Muitos livros da época dos nossos pais sofreram censura e romances apenas de entrenimento tomaram o lugar - isso te lembra a uma tal política de pão e circo?).
**Atenção: esse processo de formação de ditaduras e influência americana não é tão simples, faz parte de um contexto inteiro de uma época, mas tem bases parecidas com a de Jogos Vorazes.

A grande questão é que, em Jogos Vorazes, a Katniss perde a confiança nos dois lados. A Capital sempre foi um problema e ela nunca concordou com a ideia de meia dúzia viver com tudo enquanto o resto morre de fome trabalhando para eles. Depois, no Distrito 13, ela percebe que está tomando o mesmo caminho, que pode acabar virando uma Panem inversa ou uma ditadura "igualitária". Ela enxerga que nenhum dos dois lados é tão bom assim e as coisas não vão mudar tanto (e, com a morte da Coin, ela cria uma chance de ser algo mais parecido com uma democracia).

No final, no nosso mundo real, acontece algo parecido. A URSS, com seus princípios perdidos, acaba desmoronando. As ditaduras pelo mundo, acabam perdendo a força (já que, em muitos casos, o povo não aguentou, criou um crescimento autodestrutivo ou a falta de um inimigo enfraqueceu os governos*). Em outras palavras, acaba que nenhum dos dois modos é mesmo válido. 
*Além disso, as ditaduras podiam atrapalhar a expansão americana.

Outro ponto interessante dessa comparação é a que traz os EUA para mais perto ainda da Capital e o Distrito 13 para URSS: a guerra ideológica. O nome "Guerra Fria" resume um conflito silencioso que ocorreu de vários modos e não como a guerra em si. Isso é exatamente o que acontece na maior parte de "A Esperança", a invasão de Capital e a ação é só no final. 

No livro: temos uma grande guerra de propaganda, com o Distrito 13 usando a Katniss de um lado, a Capital usando o Peeta do outro. Isso para que o povo seguisse um ou o outro lado. No mundo real: Até hoje aqui no Brasil, que sofreu da influência americana, há uma carga negativa na palavra "comunista". E, volta e meia, surge um filme que traz uma propaganda embutida* (assim como eu falei no caso da Katy Perry com a guerra).
*Um exemplo clássico, mas mais com a Alemanha e Hitler, são os filmes baseados em quadrinhos antigos, como "X-men" e "Capitão América", onde os inimigos são de lá. Aliás, o filme mostra bem o Capitão América sendo para a população americana o mesmo que no livro a Katniss é para os distritos. 

No livro: Em uma primeira fase, os distritos começam a se revoltar contra a Capital e acontecem os conflitos "localizados", com o Distrito 13 apoiando os rebeldes e o governo tentando se segurar. No mundo real: os muitos conflitos EUA vs. URSS que aconteceram pelo mundo. Um exemplo clássico (e que tem ligação direta com a Suzanne Collins) é o da Guerra do Vietnã, que era dividido entre a parte norte (de influência comunista) e a parte sul (de influência capitalista). Os EUA deram apoio ao Vietnã do Sul ajudando a atacar o norte.

A foto é tão clássica para demonstrar o horror da guerra que se escrever "garotinha napalm" no  Google você encontra.
Só para lembrar, eu não estou aqui defendendo lado nenhum, até porque eu concordo bastante com a visão da Suzanne Collins.

Fim dos spoilers de "A Esperança" aqui.

O presente...
"Então.. um monte de gente passa a vida trabalhando, como escravos, para só alguns viverem no luxo"
É claro que eu estou descrevendo a Capital e os distritos, não é? Não. Essa frase veio de uma conversa com o meu pai mais do que inesperada. Se algum fã de Jogos Vorazes chegasse nesse ponto, provavelmente pensaria que estávamos no meio de uma discussão sobre a vida em Panem. Porém, nós não estávamos. Estávamos falando do Rio de Janeiro, das favelas e da história da humanidade no geral

A sociedade de aparências 

Vivemos na época que criaram os realities shows, onde a propaganda é forte, onde as aparências estão em alta. Nós, no post de análise, falamos sobre como o livro trata do "Real or not real?". A personagem principal, Katniss, é quase paranóica de tanto que ela desconfia das pessoas. Ela está o tempo todo confrontando verdades, mentiras e precisando julgar o que é o quê. No nosso mundo, não é difícil alguém falar que algo é "falso". Aqui mesmo, tratamos sobre a ideia de dizer que Jogos Vorazes é um plágio de Battle Royale.* A autora não só aborda essa questão de o que é verdadeiro em vários níveis, enquanto traz exemplos de pontos de vistas que contradizem o comum (o personagem que as pessoas mais gostam, mente o tempo inteiro, enquanto um que atrai até ódio, é o que mais fala a verdade).
"A gente trabalha muito com o que é natural e o que não é natural" - frase ouvida na escola de comunicação 

Tecnologia e Biologia

Quando o meu primo tava falando sobre o filme (o mesmo do início do post), ele citou os "cachorros" saindo da terra como argumento de que não era real. É claro que ele não podia saber que aqueles "cachorros" eram, na verdade, seres criados a partir de manipulação genética - o que também parece distante da nossa realidade. 

A questão é que essas coisas podem não ser reais, mas está próximo o bastante para a gente questionar o uso delas. Qualquer um que tem aula de Biologia (principalmente agora com o ENEM), já passou por uma aula que questiona esses avanços. No próprio livro, com o surgimento do Mockingjay (tordo) e a falha do Jabberjay (gaio tagarela), já é mostrada a limitação do homem para controlar essas criações. E é melhor a gente começar a pensar antes que aconteça*. 
*Curiosidade: muitos dos zumbis mais recentes, como em Resident Evil, são fruto da manipulação de seres vivos. 

Para falar a verdade, elas já são reais. Enquanto escrevia lembrei dos gatos fluorescentes.

Saiba mais

Análise de caso: está acontecendo agora

Essa semana o nosso CCTV teve tudo a ver com esse post, foi sobre o Joseph Kony, um homem na Uganda que comanda um exército de rebeldes e sua forma de recrutamento é através do sequestro de crianças, que já crescem em lugares isolados de péssimas condições, sem muita perspectiva de futuro, e ainda convivem com o medo de serem levadas ou verem alguém ser (muitas vezes, as crianças sequestradas morrem, são multiladas, estupadradas...).

Podemos fazer uma linha aqui com a Capital. Para falar a verdade, enquanto eu escrevo esse texto eu me surpreendo com o número de semelhanças. Apesar de não ser um sistema de governo organizado, as condições gerais são muito parecidas.

Joseph Kony, uma força que funciona passando por cima da liberdade alheia, usando a violência para conseguir o que quer (nos livros, a Capital precisa de recursos; já na vida real, ele quer criar um exército).

Nos livros, uma das coisas que mais me faz pensar, é como a Katniss tem uma vida triste e sem destino. Ela vive para manter a mãe e a irmã, mas e quando a mãe morrer e a Prim casar? Ela ia envelhecer, sozinha, em uma cabana (há outros pontos de argumentação, como existir o Gale, mas não quero me estender aqui). Isso porque ela é o tipo de pessoa objetiva e vai pelo o que é lógico, então sabe que o melhor não seria criar nada (porque, se você não tem nada, não podem tirar isso de você). Esse é o futuro que ela teria. Ou...

Ou ter uma família e ano pós ano ver a vida deles em risco. Não só porque eles podem ser retirados a força e levados para um reality show onde eles provavelmente vão morrer, mas porque a vida no distrito não é fácil. Precisa lidar com a fome, com a falta de recursos, com uma lei opressora e com o fato de que não há, mesmo, um modo de sonhar com um futuro bonito.

Então, meu amigo, agora eu estou interrompendo a programação para avisar que você acabou de encontrar o trecho secreto. Que isso? Você pode ganhar mais vinte e cinco chances no sorteio dos livros de Jogos Vorazes que está acontecendo, basta fazer um comentário com conteúdo aqui - não fale sobre o trecho secreto ou que ganhou, se falar será desclassificado - e vá no post do sorteio para confirmar no retângulo do rafflecopter, colocando o nome utilizado para comentar aqui. Qualquer dúvida: twitter. Ou seja, é assim que a burguesia encontrou o caminho da liberdade em 1674.

As crianças retratadas no vídeo (Kony 2012) também passam boa parte por isso. Podem ser tiradas de casa a qualquer momento e, em casa, precisam lidar com outros problemas, como a fome, a falta de um futuro...

E digo mais: isso não é só na Uganda. Quem prestou atenção nas aulas de História, tem ideia do quão problemática essas áreas da África são. Ou, para ir até mais longe (ou mais perto), isso também ocorre no Brasil, com pequenas alterações. Trabalho escravo no Brasil. 

Atenção: spoiler de "A Esperança" e do fim de "Em Chamas". Terá aviso quando acabar.

Mas e por que é que isso na Uganda está recebendo atenção agora? Se você leu o texto do CCTV, provavelmente já tem ideia da resposta. Foi descoberto petróleo lá, os EUA precisam de bons motivos para explorar (e, novamente, quem estudou História sabe que eles sempre usam desculpas para o que fazem, é quase marca registrada). Tá, tá. Mas o que isso tem a ver com Jogos Vorazes?

Isso tem a ver com o Distrito 13, que de cara parece o mocinho (assim como os EUA), mas depois nós não temos mais tanta certeza. Há interesses na história. No caso da realidade, dá para acreditar que os EUA vão lá apenas matar o Joseph Kony (que, assim como o Osama Bin Laden, não criou isso tudo sozinho) e voltar para casa? E como vai ficar o país depois? Ah, e os outros países que passam por algo parecido ou até pior?

Outra coisa muito interessante que aparece em Jogos Vorazes e graças ao Kony 2012 vemos em primeira mão, é a propaganda. Os vídeos que a Katniss faz, os vídeos feitos pela Capital... Esse vídeo do Kony 2012 é uma propaganda como essas* - e das muito bem feitas. E agora: para qual lado você vai se deixar levar? Seria muito mais fácil se a gente pudesse dar uma flechada e...
*Um caso brasileiro de propagada é aquela do Movimento Gota D'água.

Não estou aqui afirmando nada, só trazendo relações de semelhança, que estão por toda parte e que nós vemos através de Jogos Vorazes. Para você ver, no início eu já tinha feito a relação dos EUA como Capital e URSS como Distrito 13, enquanto agora os EUA são o Distrito 13 e o Joseph Kony a Capital (tudo depende da perspectiva, sem falar que eu estou citando épocas e situações diferentes).

Fim dos spoilers dos dois últimos livros.

Comentário final

Essas foram algumas comparações para as pessoas verem como o que está nos livros pode representar a nossa realidade de diversos modos. Não significa que a autora pensou em tudo isso, às vezes fazemos muitas relações sem nem pensar. A questão é que, independente do objetivo da autora, a trilogia serve para abrir os olhos de muita gente e nos fazer entender certos aspectos. Há até professores e pais que comparam o reality show como uma metáfora para a escola americana (não quero nem saber o que eles estão fazendo por lá...). 

Obrigado por participar!

Esse foi o último post do Centro de Treinamento, nosso especial das sextas temáticas de março dedicado a Jogos Vorazes. Aqui nós tentamos preparar vocês um pouco para os Jogos Vorazes, assim como o Centro de Treinamento do livro faz. Pelos comentários nos posts e no twitter, parece que ajudou muita gente a reparar em coisas que não havia percebido antes, o que é muito bom. Ficamos muito felizes em saber que o fazemos aqui está sendo útil. 


Até a próxima sexta.