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quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Discussão: Esse livro é ou não é distópico?


Oi todo mundo! Semana passada eu vim aqui mostrar que há duas formas de se ver a distopia e é por isso que muita gente se confunde na hora de definir se um livro/filme é realmente distópico ou não. Se você ainda se confunde, sugiro dar uma lida, porque vai ser importante para esse post aqui. Hoje eu vou falar de alguns livros que eu sempre vejo parar em discussão de "é ou não é" e responder de acordo com as definições. Vambora!

Distopia em histórias, de acordo com a primeira definição: Livro/filme/música/... que apresente um sistema (tipo de organização da sociedade) extremamente ruim. Seja lá o que você chamar de ruim. Em cenários normalmente relacionados à ficção científica.
Distopia em histórias, de acordo com a segunda definição: Livro/filme/música/... que apresente um sistema que limite a liberdade de modo negativo e o foco do livro seja discutir/exemplificar isso.                                                                                 post discutindo

Gone - O Mundo Termina Aqui: Algumas pessoas dizem que Gone é distopia e até a Igra aqui do blog fala que existe uma "fagulha" disso na história. Se você usar a definição geral de "qualquer situação muito ruim", até vai, mas se usar a definição mais específica, não é. Gone é muito mais pós-apocalíptico. 

O "apocalipse" seria: o desaparecimento de todos os mais velhos e a bolha que prende todas as crianças naquele lugar. E a história é sobre as pessoas lidarem com esses problemas (fome, desordem, mutações que estão acontecendo...) e buscarem uma solução. 

Fórmula para reconhecer um livro pós-apocalíptico: Grande acontecimento com proporções negativas (escolha um aqui) + pessoas se virando nos 30 + busca por alguma "solução". 

Normalmente confundem histórias pós-apocalípticas com distopias por um simples detalhe: caos + busca por solução. O resultado disso muitas vezes é um "governo" frágil que lida com tudo na base da força (= problemas com liberdade). É o que acontece em Gone, quando um grupo de crianças tenta liderar o resto. Mas desde a uma briguinha entre quem vai liderar tudo no meio da confusão (pós-apocalíptico) até existir realmente um sistema instaurado que leva a uma discussão profunda sobre a falta de liberdade (livro distópico) é um longo caminho. 

Em algumas vezes, como acontece em Apocalipse Z: A Ira dos Justos (terceiro livro), vamos parar em um livro distópico dentro de um pós-apocalíptico. Não é impossível misturar os dois, principalmente quando o foco muda, mas ainda assim são duas coisas diferentes.

Só um comentário extra: Muitas vezes para justificar um sistema distópico no futuro, tipo em Jogos Vorazes, os autores colocam no passado um evento apocalíptico para destruir tudo o que nós conhecemos hoje em dia. Ainda assim, o livro não é pós-apocalíptico. E para existir uma distopia não precisa ter ocorrido nenhum evento pós-apocalíptico (há livros que nem explicam o que aconteceu, simplesmente existe a distopia). 

Eu chamaria do quê? Gone é pós-apocalíptico. Pelo menos o primeiro livro, é claro. 

Jogador Número 1: Esse eu conheci, aliás, como indicação de livro distópico. Eu já fiz uma discussão completa (Jogador Número 1 é distopia?), mas vou comentar aqui. Dentro da definição de "situação muito ruim" pode até ser distopia também, mas dentro da questão de liberdade não é. Ele tem a estrutura para enganar: uma corporação do mal ameaçando a liberdade e pessoas vivendo em má condição. Porém, as pessoas ainda têm liberdade, pelo menos quase tanta quanto nós temos agora. 

A questão central do livro é que a nova tecnologia, o OASIS, que permite que as pessoas vivam em um ambiente virtual utópico, causa a maior parte dos problemas ("high tech, low life"). Em vez de fazerem algumas coisas, as pessoas mendigam por uma oportunidade de entrar nesse mundo. Em vez de viverem, elas ficam lá. E isso, inclusive o estilo da história, encaixa certinho no Cyberpunk. 

Comentário extra (só para os fortes, risco de mindfuck): Esse livro é tão distópico quanto pós-apocalíptico, porque se só a ameça à liberdade já faz chamarem o livro de distópico, todo o cenário e os problemas do fim de combustíveis valeriam a definição como "pós-apocalíptico". Mas é como na aula de português da escola: tem isso, tem aquilo, mas o predominante é... Cyberpunk. 

Eu chamaria do quê? Jogador Número 1 é um cyberpunk YA. Aliás, o cyberpunk tinha força mesmo na década de 80... (para quem não sabe, o livro também é uma viagem pela cultura nerd da década de 80 e tem várias referências a obras cyberpunk)

Divergente: Esse a própria divulgação faz questão de gritar para todos os lados que é distopia. Mas é? (Um aviso: esse comentário é sobre o primeiro livro, Divergente, não a série/trilogia/o que inventarem). Dentro da definição distópica de "situação muito ruim"? Provavelmente não. Ninguém passa fome, todo mundo tem roupa, transporte e acesso ao tipo de conhecimento que precisa. Dá até para querer viver lá. Poderiam forçar por causa do cenário próximo de ficção científica, mas é mais fácil dizer que é só ficção científica.

Agora da definição de distopia mais específica? Mais ou menos. Eu acredito que a série possa se tornar distópica, mas o primeiro nem tanto. O foco do livro, como a maioria das histórias Young Adult, é a personagem descobrir quem é. Ela sai do nada, de um ambiente onde tudo é uniforme, e se define. Se não houvesse um detalhe e a deixa para outro livro, poderia ser apenas uma caricatura da nossa vida hoje em dia, ou uma espécie de metáfora com a moral de "encontre o seu próprio caminho". 

O lado distópico (dentro da segunda definição). O mundo de Divergente é assim: você pode fazer o que quiser, mas dentro dessas opções (as facções), de acordo com as regras delas e se você conseguir entrar para uma delas. Ou seja, começam os problemas com a liberdade. A Tris também vai descobrindo várias falhas nessa história toda e há um segredo importante. Só que o destaque não chega a isso, talvez com o desenrolar da série, a história caia mais para esse lado. Aliás, as pessoas foram divididas em facções na tentativa de criar um mundo ideal, quase uma utopia. 

Um comentário extra: Você pode me responder "tá, mas eles não podem desobedecer uma série de coisas". E você pode? Pode sair pegando algo em uma loja ou entrar em um restaurante fechado? Todo tipo de sociedade acaba se organizando com base nas restrições de algumas liberdades, o problema não é só cortar a liberdade, é cortar a tal ponto que proiba a pessoa de ser. E, até onde eu vi, a Beatrice só se tornou Tris com ajuda desse sistema (existe um detalhe especial* sobre ela, eu sei, mas ainda assim esse não é tão o foco do primeiro livro, né?). 

Um outro exemplo interessante, só para marcar, é de O Temor do Sábio. O livro não tem nada a ver com distopia e o personagem Kvothe viaja por lugares com culturas diferentes. Em um lugar você pode sorrir, no outro isso não é bem visto. Existe um lugar onde música é praticamente proibida. Vai dizer que virou distopia por causa disso? Não exatamente, faz parte da cultura em cada sociedade e eles vivem bem do seu jeito. Ou seja: existe uma diferença entre cultura que limita (para gente, andar com a cabeça coberta parece um absurdo) e a limitação causada por uma distopia. Só estou mostrando que a sociedade de Divergente, como é mostrada no primeiro livro, não é tão problemática assim**.
*SPOILER!!! detalhe especial: ela é divergente e isso é proibido. ela não pode ser quem é, mas esse não é exatamente o que é desenvolvido no primeiro livro. 
**SPOILER!!! O que ameaça, no final, é que alguns estão se aproveitando e querendo dominar. Não é um problema na sociedade em si.

Eu chamaria do quê? Apesar de não aceitar tão bem a definição para o primeiro livro, acaba sendo uma das melhores para se classificar Divergente. Eu não sou tão xiita assim e aceito quando há razões o bastante. 

Destino: Eu decidi falar desse livro só por exemplo, porque esse é bem pro lado distópico YA da coisa. Tanto na primeira definição (por todo o estilo de mundo supercontrolador) quanto na segunda definição. Como acontece em Divergente, encontramos a tentativa de criar o mundo perfeito. O problema aqui é que em vez de dividir cada um no seu estilo, decidem tornar todo mundo igual. Tem uma parte que eu não esqueço, um comentário alheio que ajuda na construção. A personagem principal diz que estão cortando as plantas nas ruas porque a de alguém estava maior (Um tem a planta maior que a do outro, inveja, problema...). Só que um universo onde você não pode divergir é um problema, não é? Principalmente por causa da forma como essas pessoas são excluídas da sociedade. Daí começa a história da personagem principal descobrindo esses problemas...

Comentário extra: Eu, sinceramente, não gostei tanto assim do livro. Ele é pequeno e a leitura é bem rápida, mas ainda assim não é o que eu chamaria de agradável, tanto que não tenho muita vontade de continuar a ler a série (ou trilogia, sei lá). No entanto, eu lembro de mais partes dele do que de outros livros que eu gostei. Apesar do foco na construção do mundo ser fraco, tem muito detalhe e coisa interessante para se discutir. 


Espero que esse post tenha ajudado a quem estava em dúvida sobre esses livros. Se você me perguntar qual o valor de toda essa discussão que fiz com esses dois posts, a resposta é simples: refletir. Quando você tenta encaixar os livros nessas definições e pensar de acordo com elas, você pensa sobre a história e sobre o que ela significa. Você pode ler só pra passar o tempo ou procurar o novo namorado fictício, mas também dá para aproveitar muita coisa se parar para pensar essas histórias.

Fique livre para divergir e olhe os links do veja mais tanto desse quanto do post de semana passada, trazem informações bem legais para quem gosta do assunto. (:

Veja mais:

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

[Resenha] Divergente, de Veronica Roth

por Dana Martins

- Livro: Divergente
- Divergente - Livro 1
- Autora: Veronica Roth
- Editora: Rocco
- Comprar: Submarino, ExtraSaraiva.
- No skoob
- Continua em: Insurgent (2012, ainda não lançado no Brasil) e ainda sem título.







Mini-crítica: 
Em um futuro remoto, a sociedade se divide em cinco facções: Abnegação, Amizade, Audácia, Franqueza e Erudição. Algo como as casas de Hogwarts, mas que é para a sua vida inteira. Se você escolhe Erudição, vai passar a vida aprofundando os conhecimentos com as outras pessoas que escolheram isso (eles são a sua família!) e levar as regras dessa facção até o limite. Beatrice está com 16 anos e chegou a hora de escolher para qual quer entrar. A história desse primeiro livro, Divergente, é sobre o processo de iniciação que ela passa na facção escolhida, que é tipo um campeonato para se certificar de que ela vai viver de acordo com as regras daquela facção. É um livro YA daqueles viciantes, com personagens legais e uma ação que envolve totalmente. Se você gosta de ficção científica e histórias YA, com certeza é uma indicação.

Quer saber mais? Clique abaixo para conferir a resenha completa.
Numa Chicago futurista, a sociedade se divide em cinco facções - Abnegação, Amizade, Audácia, Franqueza e Erudição - e não pertencer a nenhuma facção é como ser invisível.

Todos os jovens aos 16 anos passam por um teste de "vocação" para descobrir qual é a sua facção e essa é a vez de Beatrice, que cresceu com os pais na Abnegação e está em dúvida quanto a qual caminho seguir. E em mundo onde o lema é "facção antes da família", é mais complicado ainda. Mas ela vai ter que escolher.
Atenção: Evite ler a sinopse da Rocco e seguir as propagandas da Rocco do livro, porque elas têm spoiler. :/

Divergente é mais um livro sobre futuro e sociedade diferente, mas não “apenas mais um livro”. Divergente veio para acrescentar. O principal diferencial está na ação, mas os personagens também são interessantes. Além disso, não é aquele livro só de introdução para a série, é um livro que mostra o fortalecimento da personagem principal. O clássico dos livros YA: quem eu sou?


Aqui comparando com Destino (Matched): os dois são livros que mostram uma personagem se transformando a ponto de desafiar a sociedade em que vive (sendo séries, sem a conclusão das consequências disso). Em Destino essa transformação é lenta e representada por um triângulo amoroso típico de YA, como diria a autora Carrie Ryan, que fica muito no plano psicológico. Já em Divergente essa transformação é representada pela iniciação na facção que ela escolheu, então passa do psicológico para os acontecimentos em si e nós observamos como a transformação acontece.

A parte das facções é muito legal. Como diz na sinopse, cada um tem que escolher uma e passar a viver de acordo com ela, mas antes precisa passar por uma série de testes para ver se é mesmo capaz de fazer parte daquela facção. Em outra palavras, do que adianta ser da Franqueza se você mente por aí? Então tem que ser testado até o limite para ver se não vai mesmo mentir nunca. Nós só conhecemos o processo da facção da Tris (Beatrice), mas é muito divertido e diferente (não vou comentar para evitar spoilers).

Depois da iniciação, nós vemos de verdade como ela mudou, se transformando em uma das minhas personagens preferidas. Tris é uma garota forte e, ao mesmo tempo, com falhas, mas tudo isso faz ela ser quem é. Também tem os outros personagens, o Four, a Christina, o Will, o Al… eles não são tão profundos tipo em Sangue Quente, mas nem de longe tão surpeficiais quanto em Destino. Todos eles têm uma história própria e características particulares. Uma coisa interessante é que a autora, Veronica Roth, consegue equilibrar bem as características de modo que eles não são bons nem maus, são mais humanos.
*A Tris é tão boa que às vezes fazem fanart pra ela usando imagem de uma das personagens mais fortes e marcantes da história, a Lara Croft (não do mundo dos livros, mas personagem épica é personagem épica em qualquer canto). 

Na história está sempre acontecendo algo, porque é uma competição para entrar na facção e você fica torcendo pelos personagens. Ainda tem "subtramas", tipo a da família dela, os furos na sociedade que a Tris vai encontrando e o segredo dela que coloca tudo em risco.

Para os apaixonados de plantão, há romance no livro, mas não é nem o foco e deixa a desejar. Infelizmente, Veronica Roth não é tão boa descrevendo beijos quanto descrevendo gente pulando de prédio. De qualquer forma, o livro não é sobre isso e não ameaça nem um pouco estragar o que a ação do livro construiu (e eu já vi até gente falando que adorou o romance). E, quando eu digo ação, só lendo para ter ideia de como é. Poucas vezes um livro consegue me fazer esquecer totalmente do mundo e participar tanto do que está acontecendo. Juro que eu pulei de um prédio lendo esse livro.

>>>Divergente é distopia?
É mais distopia do que muita coisa que as pessoas dizem que é por aí (tipo Gone), mas é um pouco diferente. O mundo dela é mais um mundo com regras muito duras do que um mundo opressor. Eles têm até bastante liberdade, mesmo que precisem escolher uma facção para o resto da vida e passar por um teste louco para fazer parte dela (é quase como o vestibular, só que mais eficaz). Além disso, esse primeiro livro é muito mais focado no teste pelo qual a Tris passa do que em criticar a sociedade, o próprio grande segredo dela só tem mais destaque para o fim. (Spoiler de Jogos Vorazes) Acho que é quase uma versão em grande escala do distrito treze. (Fim do Spoiler de Jogos Vorazes) Por enquanto, está a anos-luz de uma distopia tradicional e perto de uma distopia YA. 

Sobre a nota: Jogos Vorazes tem 5 e é o meu preferido, então esse ganha 4,5.

Classificação:


(4,5/5 conversinhas)


Veja mais

terça-feira, 24 de julho de 2012

Três livros sobre... sociedades distópicas



Heey! Mais indicação de distopia aqui no CC. Nós adoramos e sempre acabamos falando disso, então um "Três livros sobre..." é mais do que válido, né? Se você fica perdido na definição de distopia (todo mundo fica, até porque não existe algo certinho), nós já falamos no Centro de Treinamento e fizemos um post em que a autora Julie Kagawa ajuda a diferenciar Distópico de Pós-Apocalíptico. Além disso, esse mês está acontecendo a Dominação Distópica lá no NUPE, se você ainda não viu, corre lá.
*Essa é uma coluna da Iris Figueiredo no Literalmente Falando, chamada 'Três livros sobre...', que nós estamos usando aqui no blog. O primeiro foi Três livros sobre... amor, feito por todos da equipe do blog.


"O Doador" não é exatamente um livro juvenil, eu não classificaria assim, embora o protagonista tenha 12 anos. De certa forma, é um livro que faz você pensar. Por outro lado, você não consegue gostar muito do final. Todas as pessoas que leram (que eu conheço) deram uma nota mediana por causa desse final. Resumindo, o livro é questionável.

Pra começar, trata-se de uma sociedade onde não existe dor, violência, nem desigualdade. Ah, é utopia, você deve estar pensando. Não, não é utopia. Porque também não existe amor, carinho, ou afeto. Toda criança, quando faz 12 anos de idade, é designada a um cargo específico na sociedade porque todo o povo se organiza de maneira metódica, sem erros. Jonas, nosso protagonista, é escolhido para ser o Guardião de Memórias, alguém que carrega as lembranças de tudo e de todos, ou seja, as lembranças do mundo. O que já foi, o que se transformou, tudo. Não estou exagerando. É essa quantidade mesmo de memória. É um cargo importante e muito raro. E, por conta dessas lembranças sem fim, Jonas também recebe o conhecimento, algo que acabou se perdendo na sociedade devido à mesmice. E é aí que Jonas começa a questionar tudo. O porquê dessa mesmice, para onde foram todos os sentimentos...

Eu poderia escrever uma resenha sobre o livro, mas isso é assunto para outro post. O fato é que "O Doador" é uma história boa - até certo ponto. Você se sente como Jonas: começa a perguntar sobre tudo quando Jonas faz isso, começa a sentir as coisas enquanto ele vai aprendendo sobre o passado (um passado que parece terrivelmente com o nosso presente). Uma coisa legal que li nessa resenha do Nem um Pouco Épico é que o livro não tem vilões. Pelo menos ninguém tentando claramente suprimir o povo, a voz da nação ou algo assim. As pessoas são daquele jeito porque são. Elas não querem saber como poderia ser, elas não... sentem. É como se tudo fosse muito superficial, e ninguém ligasse muito.

Quando você acaba de ler, você imagina mil possibilidades, e uma delas é: será que nós mesmos somos capazes de sonhar e montar nossa própria distopia? É como se o utópico (pelo menos nesse livro) fosse quase distópico, e a diferença é tão mínima que faz a linha que separa os dois praticamente não existir.

-Igraínne Marques


Eu já li outros livros de distopia, mas escolhi esse por dois motivos: 1) é atual; 2) é diferente. Ele destoa das distopias atuais porque ele foca muito mais na sociedade e tipos de pessoas que estão nela, em um nível de crítica. Ele não é um YA para entretenimento, ele pega mais o lado "sério" das distopias (Na verdade, nem é um YA, mas não vou discutir isso agora). Acho que falta um pouco disso hoje em dia, né?

"Os Anos de Fartura" é sobre uma China no futuro que virou uma grande potência, tudo está uma maravilha e eles estão acima até dos EUA na ordem mundial. Tudo isso está muito bom para o escritor Lao Chen, mas alguns fatos fazem ele perceber que a felicidade constante que parece atingir toda a população não é compartilhada por todos. E ainda tem mais, essas poucas exceções lembram dos dias escuros, um mês inteiro que sumiu dos arquivos. Ninguém mais lembra disso, nem o próprio Lao Chen. Levado por uma inquietação, ele acaba se envolvendo com algumas dessas exceções atrás do que aconteceu com a China, ou atrás de um amor, ou, talvez, de conseguir voltar a escrever...

Na época, eu nem percebi, mas olhando agora, o livro parece em alguns pontos uma mistura de "Fahrenheit 451" e "1984", mas adaptado a atualmente em um mundo perigosamente próximo. Esse livro foi até banido da China e o autor elogiado pela coragem de publicar algo assim.

-Dana Martins



No futuro, a Sociedade (como é chamado o governo) controla toda a sua vida: onde você mora, o que você come, onde você trabalha, como você se diverte, com quem você se casa, quando você morre, etc.

A protagonista do livro é Cassia, uma menina que acaba de completar 17 anos e confia fielmente em tudo o que a Sociedade faz. Essa confiança, porém, é abalada quando, no Banquete de Pares – cerimônia onde os adolescentes de 17 anos que escolheram se casar descobre quem a Sociedade escolheu como seu par –, a tela que mostraria o par de Cassia mostra o seu amigo Xander, se apaga, acende novamente com o rosto de outro garoto, Ky, e se apaga novamente. E é  partir desse “toque” que levou Cassia a se questionar quanto a (in)perfeição da Sociedade que a história vai se desenvolver.  

O livro, no geral, é bem lento (mas acho que isso é “justificado” pela quantidade de informações sobre a sociedade que autora introduziu na narrativa), por tanto, não vá lê-lo achando que vai encontrar algo no estilo de “Jogos Vorazes” porque a coisa é muito diferente.

Eu diria que “Destino” é uma “distopia light”. Isso porque ele tem todos os elementos que um livro distópico precisa para ser bom, mas a autora resolveu dar mais destaque para o triângulo amoroso. Não acho que quem leu "Jogos Vorazes" só por causa da ação vá gostar do livro, acho que o público é mais para quem curte romance mesmo ou para um público mais novo (uns 8/10 anos) que tenha ficado "chocado" com a "violência" de THG.

-Paulo Vaughan


E aí, gostaram? Já conheciam? Indicam outros livros? Desses, eu (Dana), só não li "O Doador", gostei de "Os Anos de Fartura" (apesar de que não indicaria para qualquer um) e tenho uma relação estranha com "Destino, mas essa discussão fica para a resenha.

Os livros são: O Doador (The Giver, de Lois Lowry), Os Anos de Fartura - China 2013 (The Fat Years, de Chan Koonchung) e Destino (Matched, de Ally Condie). 

domingo, 15 de abril de 2012

Discussão: Distópico vs. Pós Apocalíptico


O Paulo aqui do blog encontrou esse texto da autora Julie Kagawa ("O Rei de Ferro") falando sobre a diferença entre distopia e pós-apocalípse, que no meio dessa avalanche de livros desses estilos às vezes acabam sendo confundidos. A forma como ela enxerga e a opinião sobre o assunto é muito parecida com nossa, então nada melhor do que colocar aqui, né? E ainda dá para pegar dicas de alguns livros.

Distópico vs. Pós-Apocalíptico, por Julie Kagawa
O ano de 2011 veio e foi, e nós demos boas vindas a 2012 cheios de esperança, sonhos e ansiedade por causa de todos os livros que vão ser lançados nesse ano. O mundo literário foi inundado com listas de must-have em 2012, me fazendo perceber duas coisas.

1. Há um MONTE de livros distópicos e pós-apocalípticos sendo lançados esse ano.

2. Há um MONTE  de gente que pensa que os dois tipos são a mesma coisa.

E, como eu mesma tenho um livro pós-apocalíptico sobre vampiros que sairá esse ano ("The Immortal Rules"), eu pensei que poderia esclarecer as coisas. Pós-apocalíptico e distópico não são a mesma coisa. São dois gêneros diferentes; apesar de terem características parecidas, é errado misturar os dois. E vou explicar por que eu penso assim:

Distópico
Distópico tem sido um termo muito popular ultimamente, está na frase de efeito de todos os livros que apresentam uma sociedade futurística, ou um evento de fim do mundo, sobreviventes lutando contra situações horríveis, etc. Contudo, um livro de distopia é sobre a SOCIEDADE onde algo deu totalmente errado. Muitas vezes, o lado ruim e a corrupção da sociedade são retratados como algo normal, tipo em Jogos Vorazes em que a Colheita é um dia de celebração. Outras vezes, o lado ruim está escondido, apesar de sempre haver pistas logo abaixo da fachada cuidadosamente construída. Distopia é o oposto de utopia, onde a sociedade É perfeita e todos são felizes, a não ser pelo fato de que uma sociedade utópica quase sempre acaba se transformando em distopia, porque uma sociedade perfeita faria um livro bem tedioso.

Distopia e pós-apocalípse podem ser facilmente confundidos, porque uma sociedade distópica costuma surgir das cinzas que um evento pós-apocalíptico. No entanto, em um livro distópico o foco está na sociedade, no que há de errado nela, mais do que no apocalípse em si.

Exemplos de livros distópicos: Jogos Vorazes, 1984, Destino, Feios

Quer saber mais sobre distopia? Explicamos aqui.

Pós-Apocalíptico
Um livro pós-apocalíptico, por outro lado, é sobre um evento catastrófico que muda o mundo: enchentes, zumbis, epidemias, terremotos, tempestades solares, a lua saindo do alinhamento, etc. O evento pode já ter acontecido, ou estar acontecendo, mas um livro pós-apocalíptico é sobre os sobreviventes e como eles lidam com esse mundo novo - e letal. E pode até ter sinais de distopia no livro, como quando novas sociedades surgem do que sobrou da civilização. Mas um livro pós-apocalíptico é sobre os sobreviventes, e tudo o que eles enfrentam depois que o mundo acaba.

Exemplos de livros pós-apocalípticos: A Estrada, Life as we Knew it, A Dança da Morte, Ashes Ashes.

"The Last Of Us" é um jogo pós-apocalíptico

É possível um livro ser os dois? Sim, com certeza. "A Floresta de Mãos e Dentes" da Carrie Ryan me vem à cabeça. Claramente, o mundo foi tomado por um apocalípse zumbi, mas o livro é também sobre o vilarejo e a sociedade cercada pela floresta. Então há misturas. Mas eu quis apontar as diferenças entre distopia e pós-apocalípse, porque não são a mesma coisa. Então quando você pegar o livro que você está louco para ler, você vai saber do que chamá-lo.

Repare que essa é a opinião de uma pessoa sobre o assunto.

Comentário do ConversaCult
Acho que agora ficou um pouco mais claro, não é? Isso me fez lembrar das minhas inúmeras aulas em que eu precisei analisar um texto buscando certos aspectos (como procurando gêneros) e os professores insistiam mais ou menos umas mil vezes: "Não tem só um, mas tem um que aparece mais!". Na hora de classificar livros (músicas, filmes, etc.) é exatamente assim. Dificilmente você terá só um gênero, praticamente todos têm um pouco de romance ou comédia. Porém, ter um romance não significa que o livro seja um romance (ou vai dizer o que? "Tá querendo um romancezinho? Vai ler Harry Potter!"). 

O mesmo acontece com esses gêneros mais diferentes e que não estamos acostumados, tipo distopia e pós-apocalípse. A maioria dos livros dos dois tipos que eu li acabam misturando os elementos, às vezes chegando a ficar difícil definir o livro. Jogos Vorazes na maior parte do tempo é distopia, mas tem pós-apocalípse (Panem surgiu de onde?), sobrevivência (parte das arenas), ficção cientifícias (bestantes e todas aquelas coisas)... Ao mesmo que, Apocalipse Z, que nós indicamos no Distrito 13 para os fãs de Jogos Vorazes, começa como um clássico livro pós-apocalíptico, de um homem enfrentando o inferno para sobreviver aos zumbis; Mas a trilogia termina com uma distopia muito boa. 

Tá, e que diferença faz na nossa vida saber se é uma coisa ou outra? As classificações são para nos ajudar no meio desse mundo de opções a escolher o que queremos sem precisar ler um por um. E se você for ler uma distopia procurando pós-apocalípse, vai acabar não gostando e criticando um livro por algo que ele não é. Para você ter ideia, um livro que você talvez até tenha ouvido falar e provavelmente nem goste só pelo que ficou sabendo, "Sangue Quente", sofre com um problema assim**. Primeiro, você acha que é de zumbis. Depois, acha que é romance (de um zumbi com um humana!!!!). O livro tem esses elementos, mas não é sobre uma coisa nem outra, é sobre a recuperação da humanidade. O apocalípse que eles enfrentam não é só a destruição do mundo ou o ataque de zumbis, é a falta de humanidade. Aí você abre o livro procurando "The Walking Dead" ou Crepúsculo*, fica difícil. 
*Não que eu esteja culpando ninguém, a propaganda tem sido muito errada e eu tenho medo do filme transformar a história nisso. Quando eu comecei a ouvir falar, também achava algo assim, até que eu decidi ler o livro e ele apagou meus preconceitos. 
**Uma curiosidade do momento: depois de escrever esse post encontrei um comentário falando que o final de Apocalipse Z deixa muito a desejar, mas é porque acontece isso com a história: começa uma coisa, pós-apocalíptico, e termina como outra, distópico. Se a pessoa não aceitar os dois tipos, vai desanimar. 

Outros livros dos estilos:

"Divergent", de Veronica Roth. O primeiro livro não é distopia nem pós-apocalípse, mas a série/trilogia caminha para ser distopia 

"A Passagem", de Justin Cronin. Um pós-apocalípse mais adulto e com um toque sobrenatural (ou qualquer coisa que nós ainda não descobrimos), mas, como normalmente acontece, mostra um pouco sobre essas distopias que surgem das cinzas das civilização.

"Bios", de Luiza Salazar. Esse livro está no meio do caminho de tudo, mas consegue criar um estilo pós-apocalípse no início e para o final uma espécie de distopia.

"O Pacto", de Gemma Malley. Mais infantil e uma mistura entre utopia e distopia. 

"Os Anos de Fartura", de Chan Koonchung. Esse é mais para quem gosta do lado distópico-crítico da coisa, o livro traz verdades sobre o agora e o possível futuro que às vezes deixamos passar direto.

"Gone - O Mundo Termina Aqui", de Michael Grant. Imagine um Sidney Sheldon escrevendo uma série, com personagens mais novos, com detalhes mais crus e sobre um fim do mundo que é a sua cidade ficar isolada e todos maiores de 14 anos desaparecerem. Pós-apocalípse e, pelo menos no primeiro, nenhuma grande distopia chega a ser construída. 

"A Hospedeira", de Stephenie Meyer. Aqui os mundos são dominados por alienígenas que na busca da paz não exitam em passar por cima dos humanos. Pós-apocalíptico.

O texto foi cedido pela autora para tradução.