Faz tempo que eu penso em uma forma de discutir distopia aqui no blog, porque MUITA gente se perde com esse tema. Até porque esse é um subgênero (ou gênero?) que não é tão fácil de se definir. Depois de muito quebrar a cabeça eu percebi que o problema é simples: existem duas formas de entender por aí. Elas já não são muito claras, o que causa mais confusão ainda. Vamos tentar ajudar um pouco mais.
Se você quer saber mais sobre isso, quiser discutir a classificação de livros, dar a própria opinião sobre distopia, pegar a dica de filmes/livros legais... vamos em frente!
Se você quer saber mais sobre isso, quiser discutir a classificação de livros, dar a própria opinião sobre distopia, pegar a dica de filmes/livros legais... vamos em frente!
Como base, vou usar dois posts: o "Distopia: uma origem política" do Nem Um Pouco Épico (NUPE) feito para a Dominação Distópica que conta a origem do termo "distopia"; e "O Futuro da Humanidade Segundo a Ficção Científica - Parte 2: Distopia" da Flávia Gasi que eu encontrei no Omelete e foi o empurrão que faltava para me fazer discutir aqui no CC. Eu não vou resumir o que foi dito neles, vou analisar para discutir as duas definições de distopia.
Numero 1: O mundo cruel
"Utopia é o lugar bom, ideal, com coisas impraticáveis e a distopia (ou a cacotopia) é a anti-utopia, o oposto dela." - retirado do Nem Um Pouco Épico.
Ou seja, é possível resumir distopia como "uma alternativa para o nosso mundo extremamente negativa" (enquanto a utopia seria o modo extremamente positivo). Acredito que é essa a linha de pensamento da maioria das pessoas, inclusive da Flávia Gasi do Omelete. Não é errado, é só abrangente. Por isso a distopia = situação extremamente negativa acaba resultando em várias possibilidades.
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| Alguns diriam que é utopia... |
No post do Ometele ela cita distopia totalistarista (eu diria, clássica), que é essa de governo opressor vs. oprimido; A distopia tecnológica ("'high tech, low life', isto é, quanto maior o conhecimento científico, pior a qualidade de vida da população"); a distopia pós-apocalíptica é aquela da história da pessoa se virando depois que aconteceu algum apocalipse (guerra nuclear, desequilíbrio da natureza e todos esses aqui); E ainda: criminosa, prazerosa, alienígena, feminista e corporativa.
É tudo uma situação ruim e o termo distopia quase não se sustenta sozinho. Essa "distopia tecnológica", que ela cita, é também conhecida como Cyberpunk (já falei aqui). A pós-apocalíptica poderia ser simplesmente pós-apocalíptica. Muitas das outras, como a alienígena e a corporativa entram quase como a distopia totalistarista, a diferença é que não é o Estado oprimindo.
Dizer que um livro é distopia, nesse caso, pede em seguida um "como o mundo está muito ruim dessa vez?". A pessoa não tem como saber se o livro vai falar sobre a sobrevivência num cenário destruído, criticar a desumanização causada pelo excesso de máquinas, ser uma simples aventura em busca de algo perdido ou colocar em evidência o abuso de poder.
Eu diria que é mais uma definição esvaziada, sem muito propósito. É por isso que prefiro a visão mais definida do termo "distopia", que é o segundo caso.
Número 2: LIBERDADE!
Retomando o post do NUPE e a origem do termo, John Stuart Mill falou em distopia descrevendo a situação Reino Unido vs. Irlanda.
"Em 1829, o Reino Unido reconheceu a Irlanda como parte de seu território, mas não lhe deu liberdade para tomar suas próprias decisões." - NUPE.
Em outro trecho retirado de lá, que é o meu preferido, explica bem como John Stuart Mill via essa situação para usar o termo "distopia":
"O contexto é claro: as ações e intenções do governo têm sido tão ruins que ele é o oposto de uma utopia. Mas prestem bastante atenção: no caso, as coisas ruins são as coisas que são contra as ideias de Mill. Ele defende a liberdade pessoal e não a opressão do estado, defende a igualdade entre as pessoas e não a superioridade."
Nesse momento, no entanto, o termo não tinha nada a ver com classificação de literatura. Só depois, quando surgiram textos que falavam sobre uma sociedade no futuro com governos totalitaristas, meio que refazendo histórias que essencialmente (atenção para o essencialmente) repetiam as críticas de Mill, o termo distópico foi utilizado para descrever literatura. De lá para cá isso já mudou muito, foi desenvolvido de mil maneiras e levou a todas essas confusões/interpretações.
Mas se pegarmos essa ideia inicial e fizermos uma síntese absoluta de uma explicação mais definida de distópico: seria a situação que de alguma forma a liberdade é limitada de modo negativo e o livro distópico se desenvolve em cima disso. Na maioria das vezes, como crítica ou alerta. Algumas, o autor só quer discutir o caso, mas ainda assim essa quebra de liberdade é o que está em jogo.
Normalmente essa história acaba se desenvolvendo com o opressor (aquele que limita, o governo, a corporação, o alienígena) e o oprimido (o que é limitado), que é a visão clássica da distopia. As histórias normalmente se passam no futuro (quer coisa melhor para alertar do que algo com cara de "olha o seu futuro"?), então normalmente as tecnologias são mais avançadas e servem como instrumentos para limitar essa liberdade. Quando o teor é de crítica, muitas vezes aproveitam para exagerar problemas atuais e destacá-los.
A forma de limitação da liberdade de forma negativa varia dependendo de como o autor leva a história. Alguns casos são extremos, como acontece em 1984 e de certo modo em Jogos Vorazes, que o personagem passa por um processo de "desumanização" (perde a liberdade de ser). Outros exemplos: Em Fahrenheit 451 a pessoa perde a liberdade de pensar. Em Destino - Matched a pessoa perde a liberdade de ser diferente/decidir. No fim das contas, as pessoas perdem as liberdades básicas. Pegue uma lista de declaração dos direitos e crie um mundo restringindo tudo o que tem lá e mais um pouco.
Talvez a tal versão extremamente negativa do nosso mundo seja essa onde perdemos a liberdade de ter direitos...
Número 3: Qual é a certa?
Não sou eu que decido o que é certo ou errado, o certo provavelmente vai ser o que "cair na boca do povo" (já transformaram o valor de nerd de negativo para positivo, como mostrei aqui). Mas ver que existem essas duas interpretações e o que cada uma significa com certeza ajuda na hora de pensar o que você está lendo/assistindo. Quando alguém fala usando uma definição, como a Flávia Gasi e o NUPE fizeram, escolhe um dos dois lados. E, quem está perdido no meio do caminho, fica mais confuso ainda quanto ao que é e não é.
Pessoalmente, prefiro a segunda definição (mais específica). Se a gente for pela primeira, dá pra dizer até que Resident Evil(!) é distopia. Dá quase abertura para dizer que distopia é algo real ("ah, as criancinhas que passam fome na África vivem uma distopia"), o que não é.
Distopia em histórias, de acordo com a primeira definição: Livro/filme/música/... que apresente um sistema (tipo de organização da sociedade) extremamente ruim. Seja lá o que você chamar de ruim. Em cenários normalmente relacionados à ficção científica.
Distopia em histórias, de acordo com a segunda definição: Livro/filme/música/... que apresente um sistema que limite a liberdade de modo negativo e o foco do livro seja discutir/exemplificar isso.
Semana que vem eu volto para analisar com base nessas definições alguns livros recentes que muita gente fica naquela dúvida: é ou não é? Se tem algum que você quer saber, nos diga que incluímos no post! Fique livre para colocar a sua opinião, seja qual for. :)
Veja mais:
>>>Discussão: Jogador Número 1 é distopia?
>>>Distópico vs. Pós-Apocalíptico
>>>Distopia: Características Principais
>>>Muse, distopia e 1984
>>>What is Cyberpunk?
>>>Distópico vs. Pós-Apocalíptico
>>>Distopia: Características Principais
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>>>What is Cyberpunk?


